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domingo, 29 de junho de 2014

Quintas e Lugares de Travanca de Lagos

Quinta do Veríssimo


A antiga Quinta do Veríssimo, situada numa encosta na vertente Este de Travanca, surge num extenso vale, na confluência das Chãs, do Vale de Rocim e da quinta dos Ninhos, todas propriedades da freguesia de Travanca. É atualmente uma quinta ao abandono, com todo o seu património edificado em sério risco de desaparecer, facto que me levou a dar início a um levantamento das quintas e lugares de Travanca para que, dentro do que me é possível, fique um registo fotográfico, com um breve resumo da sua história.

Fig. 1
Esta Quinta possui uma extraordinária exposição solar, que lhe confere uma particular beleza. O ar decadente do seu casario, já em ruínas (fig. 1), onde sobressaem as pedras de granito, quer das suas paredes, quer das grandes lajes em seu redor, já polidas pelo tempo, reforçam esse encanto. Em contraste, possui um manto verde à sua volta crescido pela abundância da água, que, ao correr solta, quebra o silêncio do lugar, até se estancar numa pequena represa, onde se deposita por algum tempo (fig.2), antes de atingir irremediavelmente o rio Cobral, umas centenas de metros a jusante.

Fig. 2
Não se conhece o ano da sua fundação, no entanto, este lugar vem referenciado nos registos paroquiais, no princípio do séc. XX, como Quinta do Veríssimo. Em 1906 nasce lá um menino de nome Agostinho, filho dos agricultores, Manuel Mendes Pereira e Maria de Jesus, sendo seus avós paternos Veríssimo José Pereira e Maria Dias. Talvez este seu avô Veríssimo tenha dado o nome à quinta em meados do séc. XIX. No entanto, a quinta parece ser mais antiga, bem ilustrada pelo granito erodido. Mais recentemente, também lá nasceu e viveu, até se casar, a D. Maria, esposa do Sr. Osvaldo Gonçalves, ambos comerciantes nas Campas durante mais de três décadas. Nos anos 90 ainda era habitada, numa das casas do conjunto (fig.3). 

Fig. 3
Outrora uma quinta agrícola essencialmente cerealífera mas que, ao jeito das demais, produziam de tudo. Era servida por vários caminhos, quer pelas Vendas de Gavinhos, quer pelo Zambujeiro, quer ainda, pela Adarnela, podendo escoar os seus produtos, também, pela ponte da Pantera, que a ligava a Lagares da Beira. Esta, aliás, é uma ponte muito antiga, ainda não classificada, arquitetonicamente dada por muitos como romana, parece ser, no entanto, uma ponte medieval de arquitetura românica. O seu recente nome advém dum crime que lá ocorreu em 1937, o crime da Pantera (ver post anterior).

Fig. 4
A ponte cruza o leito do rio Cobral, numa zona bastante pedregosa, ligando um extenso vale, outrora bastante produtivo, com as quintas sobreditas, pela parte de Travanca e, Chã de Abrantes, quinta da Carva (pertencia a Travanca, segundo os registos paroquiais), entre outras, pela parte de Lagares. Servia uma zona de Moinhos e moleiros desde épocas muito recuadas (fig.6), nomeadamente, os moinhos da Carva, os da Adarnela, podendo ter sido essa uma das razões da sua construção.

Fig. 5
Fig. 6









Em cantaria granítica, a ponte é composta por um só arco de volta perfeita, assente solidamente nas margens (fig.4). O tabuleiro é horizontal sobre o arco e rampante no topo norte, o de lagares. Lateralmente é protegido por guardas, também de granito. O pavimento encontra-se danificado (fig.7).

Fig. 7
Fig. 8









No topo sul, culmina com uma casa de granito, em ruínas que, segundo o Sr. António Cabaço, era conhecida como a casa da quinta do Perneta (fig.8). Em ambas as margens o terreno é fértil e verdejante (fig.9), convidativo ao passeio recreativo e à fotografia. Fica aqui o mote…

Fig. 9


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Capela de Stº António









A capela de Stº António é uma pequena capela rural, existente em Travanca de Lagos. Caracteriza-se por apresentar uma arquitetura vernacular, construída em cantaria de granito de aparelho irregular, com uma planta longitudinal simples e com um espaço único, sendo a cobertura homogénea em telhado de duas águas. Apresenta uma fachada principal que termina em empena, com cornija, coroada por uma pequena sineta. Os cunhais são encimados por dois pináculos que ladeiam uma cruz de Cristo  também em cantaria, sendo um pináculo em forma piramidal simples e o outro piramidal com esfera, ambos assentes em plintos. Apresenta uma porta fronteira de lintel reto, sem moldura de cantaria, ladeada à esquerda por pequena fresta vertical, que serve de óculo para o seu interior. A fachada esquerda é rasgada por uma janela de verga reta, também sem moldura e ladeada à esquerda por uma fresta vertical com vista para o altar. 



vista geral do interior
pormenor do altar


Quando se abre a porta e entramos na capela, o espaço envolvente consegue-nos surpreender. A contrastar com o austero granito do exterior, do chão e da mesa do altar, estão as paredes rebocadas e pintadas de branco, um teto abobadado em madeira, de um azul esverdeado sóbrio, ornado com duas pinturas de cariz popular, surgindo ao fundo, em destaque,  o altar branco em talha, com alguns pormenores dourados, ornado também com pinturas sacras de cariz popular e um santo António em madeira policromada, que no conjunto faz transparecer luminosidade e aumenta a nossa noção do espaço. O interior está a necessitar de algumas obras de restauro, particularmente, o altar,as pinturas e a escultura.


Pintura no teto lateral esquerdo
Pintura no teto lateral direito

A capela está implantada numa pequena encosta, no largo de Stº António, ao fim da rua do fundo do lugar. Segundo é referido pelo Sr. Ivo Pereira, que todos reconhecem ser uma fonte fidedigna, e que aqui no blog irei apelidar de "a nossa fonte", foi restaurada no fim do 1º quartel do séc. XX, entre 1923 e 1924, com o financiamento total de Luís Martins Borges,  uma figura ilustre de Travanca. Luís Martins Borges nasceu em Travanca de Lagos em 15/09/1854, era filho de Manuel Martins Borges e de Ana Maria, naturais de Travanca e Negrelos respetivamente. Viveu no Brasil onde fez fortuna, mas, vinha a Travanca frequentemente e, segundo podemos avaliar por registos existentes, a estadia prolongava-se por longos períodos, especialmente na década de 20, participando ativamente no panorama  socio-cultural de Travanca da época. Há um registo fotográfico da Tuna de Travanca onde ele aparece retratado ( tema já aqui elaborado). 

Luís Martins Borges
Outro exemplo de  registos é o  livro de atas e deliberações da Mesa da Irmandade de Sªº Pedro, onde está escrito que  ele exerceu o cargo de mordomo efetivo no ano de 1923/24 e de juiz em 1924/25, embora por impedimento seu tenha nomeado outro irmão da irmandade  para este último cargo. Segundo a nossa fonte,  faleceu no Brasil em 1936, vítima de uma queda, tendo ficado sepultado por terras de Vera Cruz.

Vem referido no Dicionário Geográfico de Portugal, vol. 37, nº97, p. 1049 a 1054, em Memórias Paroquiais de 1755, que esta capela de Sto. António já existia na época. Portanto, no mínimo, podemos datá-la em meados do séc. XVIII, mas supôe-se mais antiga. Desconhecem-se  as razões da escolha do local e  a  motivação para a sua construção. Não se descobriu  também se houve instituição de algum vínculo à capela. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A despercebida Capela de S. João Batista



A Capela de S. João Batista é uma capela particular da antiga família Álvares Brandão de Travanca de Lagos. O seu vínculo foi instituído por João Álvares, natural de Travanca de Lagos, casado que foi com Beatriz Fernandes em 1576, que terá patrocinado a sua construção por volta do fim do séc. XVI.
A particularidade desta capela reside no facto de se inserir dentro da Igreja Matriz de Travanca de Lagos, numa nave lateral, que corresponde a um acrescento que se torna saliente e se nota do Largo das Campas.








O seu interior, de aspecto rude e degradado, sem ornamentos, separa-se da igreja por um arco em cantaria imponente, bastante aberto, mas simultaneamente, fecha-se com um gradeamento que lhe rouba qualquer protagonismo. Existe também uma imagem renascentista de S. João Batista que lhe é atribuída, provavelmente doada pelo seu 1º instituidor, João Álvares.














Esse vínculo, que liga a família Álvares Brandão à capela, foi passando de geração em geração até à actualidade, embora hoje não tenha o cariz de outrora.


Segundo os registos paroquiais de Travanca, a capela era conhecida também por capela de Leonardo Álvares, o seu 2º instituidor e que lá foi sepultado em 1660, mas provavelmente o nome foi mudando ao longo dos séculos na medida em que mudava o nome do detentor do vínculo da capela. Actualmente é conhecida, pelo meio mais esclarecido, como Capela do Esporão, pela mesma razão.


Durante mais de 3 séculos foram lá realizadas as cerimónias fúnebres da família, até à entrada em vigor da lei dos cemitérios públicos, estando no chão sepultados os seus Instituidores falecidos e alguns dos seus familiares. Ficam descritos de seguida os Instituidores e respectivos cônjuges, com as datas” possíveis”, que terão sido sepultados na capela ( pelo menos até à 6ª geração):


1º - João Álvares, nascido por volta de 1550, casado com Beatriz Fernandes, em 1576.


2º - Leonardo Álvares Seco, nascido cerca de 1590/1600, casado com Maria da Costa em 1623, Ele faleceu em 1660, ela em 1655.


3º - Ana Maria da Costa Brandão, nascida em 1628,casou com Domingos Álvares Brandão em 1652.


4º - Maria da Costa Brandão, nascida em 1659, casou com António Monteiro em 1683 e faleceu em 1730.


5º - Ana Maria da Costa Brandão, nascida em 1685,casou Manuel Abranches Freire em 1710 e faleceu em 1717.


6º - Manuel Abranches Brandão Freire, nasceu em 1712, casou com Maria Cardoso Ferrão da Fonseca Castelo Branco em 1735.


7 - Inácia Maria Freire da Cunha Cardoso e Andrade, nascida em 1739, casou com Dr. João Libório de Figueiredo em 1760.


8º - Maria Bernarda Freire da Costa Brandão, nasceu em 1740, casou com Narciso Sousa Machado em 1757.


9º - Bernarda Umbelina Cardoso Freire da Cunha e Sousa, nascida em 1758 em Midões, casou com Sebastião Tavares Pinto Albuquerque Freire Castelo Branco em 1778.

domingo, 24 de julho de 2011

A enigmática Capela de São Pedro






Hoje em dia Travanca, mais concretamente a sua zona histórica, surge-nos como um postal antigo, ainda original (dirão uns), um pouco decadente e desabitada (dirão outros), decerto muito antiga, mas, é uma ilusão pensar na sua originalidade intemporal - não foi sempre assim.



Por detrás desse postal antigo, encontra-se um mais antigo e outro ainda, esse, quase sem vestígios que justifiquem já a sua existência. Procurar vestígios que nos levem a outros quadros que não os da actualidade é sempre um grande desafio e representa um dos principais desígnios deste blog.

Travanca reinventada ao longo dos séculos perdeu património, talvez demasiado, que nos impede hoje de perceber melhor o nosso passado comum, sem lacunas no tempo. Hoje em dia pretende-se embelezar a fotografia, substituindo calçadas antigas medievais por novos pavimentos e abatendo casas antigas, embora algumas bastante degradadas, em vez de as preservar. Mantêm-se a tendência do passado, agravada pelo facto de hoje haver a consciência da importância que o património tem na sobrevivência das aldeias do interior, como é o caso de Travanca.






Um desses monumentos que se perdeu algures no final do séc. XIX, e que é motivo do presente artigo, foi a Capela de São Pedro, assim referida nas escrituras, uma capela já desconhecida do nosso tempo, e que apareceu como uma "ponta solta", inexplicável, ao se investigar o cemitério do Lameiro.


A 1ª vez que a capela vem referida nos registos paroquiais data de 1650, e era usada então, para entre outros serviços religiosos, para serviços fúnebres, tendo sido lá realizados enterramentos até cerca de 1835, altura em que entrou em vigor a lei dos cemitérios públicos, terminando assim quase 200 anos de enterros na capela. Custa portanto aceitar que na altura da sua destruição, os edis da Terra não tenham tido isso em consideração.



Mas provar a sua existência ou até a sua localização parecia impossível. Partia com três possibilidades: - 1º ser uma capela dentro da igreja de Travanca, à semelhança da Capela de Sªº João Baptista; 2º ser a Capela de S.to António, situada no Fundo do lugar, e que teria mudado de nome/ apóstolo (muito pouco provável), ou por último, ter mesmo existido uma capela de S. Pedro algures por Travanca.



O impasse foi superado quando numa conversa fortuita com um amigo de Travanca, ele me revelou que a sua família era fiel depositária do sacrário da bendita capela. O Sacrário, também chamado Tabernáculo, é o Local ou reservatório onde se guardam coisas sagradas, como hóstias ou relíquias. A ilustre família de Travanca, a quem eu estou muito agradecido, amavelmente mostrou-me o bonito e bem conservado sacrário e revelou-me também a história que o acompanhava. Referiram que a peça sacra lhes veio por herança de um tio que a guardou quando a capela foi destruída.
















A capela estaria em risco de ruir e foi  infelizmente demolida. No seu local foi criado um pequeno jardim e edificado um cruzeiro, como testemunho de um lugar sagrado. Situar-se-ia em frente ao largo da Igreja, à esquerda da Casa paroquial.

Quanto à data da demolição da capela, não há certeza, mas, é de referir, que as reuniões de tomada de posse dos órgãos de direcção da Irmandade de São Pedro, foram sendo realizadas dentro da capela até ao ano de 1887, data a partir da qual as reuniões se passaram a fazer noutros locais, como por exemplo, a sacristia da igreja, assim vem descrito nos livros da Irmandade.

Resta-me referir que o uso da capela pela Irmandade como se de uma "sede" se tratasse é uma possibilidade, podendo ter sido construída pela Irmandade ou por algum irmão abastado. A Irmandade de São Pedro foi constituída e os seus estatutos aprovados em 1632, sendo comum naquele tempo a edificação de um templo onde pudessem prestar a devoção ao seu santo patrono.

Efectivamente, no Dicionário Geográfico de Portugal, Vol. 37, nº97, p. 1049 a 1054, em Memórias Paroquiais de 1755, vem descrito que a  referida capela, pertença do povo, tem a sua Irmandade e confraria e que é administrada pelos irmãos e confrades. 
Fica  assim esclarecido o enigma da existência da capela de São Pedro, embora, o tema ainda careça de novas investigações, nomeadamente, para esclarecer a relação com a Irmandade e a sua localização precisa.

domingo, 17 de outubro de 2010

O misterioso Cemitério do Lameiro


Existe uma cruz de ferro, chumbada numa pedra tosca de granito, ocasionalmente visível num mato exuberante, que assinala um terreno sagrado, segundo se diz. O povo confirma-o, não por que conheça algo que o comprove, mas porque faz parte da sua memória colectiva. Todos são unânimes em dizer que aquele pedaço de terra no Lameiro foi em tempos o cemitério de Travanca. Ainda a corroborar essa história há o facto dessa pequena parcela de terreno ainda hoje pertencer à igreja.

A contrastar com o possível passado sagrado do referido terreno está o actual estado de abandono, a que constantemente é votado. Falta repor a sua dignidade procurando os factos históricos. Caso tenha sido um cemitério, que esclareçam as circunstâncias da sua criação e também do seu abandono

Objectivamente, tirando a referida cruz, o terreno não parece ter as características de um cemitério. Não tem um muro organizado que o delimite, nem nunca parece ter tido. É uma pequena elevação de terreno de forma triangular, rodeado por um lameiro, sem capacidade de ampliação. Portanto, tudo leva a querer que poderá ter sido um cemitério de recurso, talvez o 1º cemitério de Travanca de Lagos.



A prática dos enterramentos em cemitérios é relativamente recente, sendo a forma mais comum o enterro dentro dos templos ou nos adros das igrejas, modelo este que estava profundamente enraizado no Ocidente cristão desde a Idade Média. A mesma situação se passava na freguesia de Travanca, havendo assentos de óbito a partir de 1583 que referem exactamente essa prática. Concretamente, sepultavam os seus mortos dentro da igreja dando, às vezes, a sua localização, como é o caso de um assento em 1586 onde escreveram sepultada perto do alpendre, ou outro já mais tardio, que escreveram sepultada à porta principal desta igreja, ou ainda, enterravam no adro da igreja ou Adro de São Pedro. Cerca de 1650 começa também a aparecer a designação de capela de São Pedro. Por volta de 1700 mantêm a mesma prática, mudando apenas alguns nomes, ou seja, na Igreja de São Pedro ou no Alpendre de São Pedro ou ainda também na Ermida de São Pedro. Ao longo de todo este periódo foram sendo também enterrados na Capela de São João Batista, que fora uma capela instituída por João Alvares em finais do séc. XVI e que se situa dentro da igreja de Travanca, havendo vários registos de óbito ao longo dos séc. XVI e XVII até cerca de 1752 que o comprovam. Obviamente que apenas lá eram sepultados os instituidores e os seus descendentes. Os enterros no adro deixaram de se fazer por volta de 1722.


No séc. XVIII esta prática medieval de enterrarem os defuntos começa a gerar discussão. De facto, a necessidade de criação dos cemitérios públicos em Portugal vem descrita já desde o terramoto de 1775. As pessoas mais esclarecidas da época chamavam à atenção para os riscos para a saúde pública dessa prática de enterramento nas igrejas. A 1ª legislação sobre esta matéria foi da autoria de Rodrigo da Fonseca Magalhães, Ministro do Reino e curiosamente natural de Midões, que institui especificamente, pelos decretos de 21 de Setembro e de 8 de Outubro de 1835, a obrigatoriedade de criação de cemitérios públicos fora das povoações.




Mas, para surpresa nossa, muito antes dessa legislação entrar em vigor já tinha sido criado um cemitério em Travanca. Curiosamente, foi em 13 de Julho de 1811, em plena invasão Francesa, que o prior João Ferreira Machado e Silva procedeu pela 1ª vez a um enterramento no Cemitério, a que ele apelidou simplesmente de cemitério, sendo o defunto Jacinto de Abrantes, marido de Tomasia Maria, ambos de Travanca. Apenso aos registos da época está uma carta onde o prior pede autorização eclesiástica para esta nova prática de enterramentos, justificando-a com a falta de espaço nos dois templos existentes, a igreja e a capela, provocada por uma epidemia de Febre Maligna que assolou a freguesia. De facto, entre Outubro de 1810 e 27 de Outubro de 1811 faleceram 66 pessoas, o que determinou na altura essa medida extraordinária.


Mas, reposta a normalidade, o cemitério não foi desativado. A partir dessa data, os enterramentos foram sendo feitos indiscriminadamente, quer na igreja quer na capela quer no cemitério. Em 1835 quando a lei da criação de cemitérios fora das povoações entrou em vigor, o cemitério de travanca (do Lameiro), já estava em uso há 24 anos, foi provavelmente aproveitado como um local de transição para um novo, visto que ele era demasiado pequeno para servir como único local de enterros. Começou então a ser referido nos registos como o chamado cemitério da freguesia, justificando dessa forma a existência de um e cumprindo portanto a lei. A 1ª vez que assim foi tratado foi em 4 de Outubro de 1835, a propósito do falecimento de José Marques Neto Júnior de Travanca, coincidindo com a entrada em vigor da nova legislação.


A partir de 2 de Fevereiro de 1839 voltou-se a chamar cemitério da freguesia ao local de enterramento dos defuntos, embora se creia que se referissem já ao novo cemitério de Travanca de Lagos entretanto construído, levando o do Lameiro à sua situação actual. Durou, portanto, cerca de 28 anos ao serviço da freguesia e como não existe nenhum culto associado a ele que perdure, crê-se que terão transladado as sepulturas remanescentes para o novo local. Fica assim resolvido o mistério do Cemitério do Lameiro, também conhecido como Cemitério Velho e conhecida a sua história, complementando assim a memória colectiva do povo de Travanca .

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A antiga Casa dos Abreus de Travanca de Lagos



Em Travanca é talvez a casa mais antiga de tipo senhorial ainda habitada. A sua presença pode passar despercebida, pelo facto de parecerem três casas independentes: uma parte bastante degradada; outra mal reconstruída e uma terceira recém reconstruida, que lhe restituiu um pouco a alma. Num olhar mais atento, temos a percepção da enorme casa que foi e do prestígio que terá tido.

Situa-se numa das zonas mais antigas da povoação, ao fundo duma calçada medieval – na rua do Fundo do Lugar. A fachada mantém os principais traços de antiguidade que caracterizam uma casa Beirã , deste tipo, do séc. XVI/ XVII. Tem uma arquitectura simples, mas sóbria, mostrando despidos os grandes e bem aparados blocos de granito, habilmente sobrepostos entre si, sem argamassas. Outra característica é a cantaria chanfrada, lavrada em bisel das portas e janelas, que a remetem para a época. Na ombreira de uma das portas, está inscrita a data de 1612, que deverá representar a data de construção, portanto, uma casa com quase 400 anos, mandada construir provavelmente por António Gonçalves Abreu.


A história conhecida dos Abreus de Travanca de lagos começa precisamente nessa época, remontando a cerca de 1585/90, quando António Gonçalves de Abreu nascido em Oliveira do Hospital cerca de 1560, veio casar em Travanca de Lagos com Ana Francisca, daí natural.
O seu avô, Roque Fernandes de Abreu, " o Pequeno", era de Lourosa, onde nasceu cerca de 1500 e lá faleceu em 1572.
O seu pai, João Francisco de Abreu, também de Lourosa, casou com Isabel Gonçalves de Figueiredo, herdeira da Casa de Oliveira do Hospital e da Quinta da Costa de Nogueira do Cravo. Faleceu a 31 de Agosto de 1604. Tiveram 9 filhos, sendo um deles o "nosso" António Gonçalves de Abreu.
Do seu casamento com Ana Francisca, teve pelo menos um filho, também chamado Roque Fernandes de Abreu, como o seu bisavô, nascido em Travanca de Lagos cerca de 1590 e que vem referido como: "Sargento de uma Companhia de Avô em 1628 e Capitão de Ordenanças. Foi casado com Ana Afonso de Abranches, natural de Anseriz, onde viveram, sendo dos principais da terra". Este ramo dos Abreus, é o ascendente conhecido dos Abreus da família do visconde de Midões. Com respeito aos ramos que terão permanecido em Travanca, decerto com larga descendência, não se encontram descritos.
A casa original dos Abreus terá sido sempre habitada até aos nossos dias. Vivem actualmente na casa, duas famílias, em partes separadas, sem qualquer ligação familiar aos Abreus. Passou nas últimas décadas por um período de degradação grande, tendo mesmo chegado a ruir uma parte, que depois foi reconstruída. Ainda assim, longe do fulgor de outros tempos, conseguiu resistir ao passar de quatro séculos e testemunhar a memória dos seus fundadores.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Antiga casa da Família Álvares Brandão de Travanca de Lagos


O tema desta casa é recorrente neste Blog mas, compreenda-se, neste espaço está tudo relacionado – história, poesia e património. Claro que foi também a casa onde a minha avó viveu quase 30 anos (numa versão reconstruída), portanto, uma casa também muito especial para mim.

Remonta, provavelmente, ao último quartel do séc. XV, construída por Álvaro Afonso Brandão quando este se casou com Catarina Vaz, que era natural de Travanca de Lagos.

Álvaro Afonso Brandão, nasceu em Midões por volta de 1450, pessoa nobre, de acordo com o processo de Habilitação ao Santo Ofício do seu bisneto, o Inquisidor João Álvares Brandão. Afonso Brandão era descendente de famílias de grande fidalguia, estando a sua ascendência referida, por Manuel Rosado Vasconcelos, até Paio Gonçalves que viveu em Midões em 1131.

Casou em Travanca de Lagos em 1485 com Catarina Vaz, daí natural. Teve um filho chamado João Álvares Brandão, Juiz em lagares da Beira, sendo referido como homem honrado, mercador, dos principais do concelho. Este casou 2 vezes, a 2ª com Catarina Álvares, natural de Midões. Do casamento resultaram 4 filhos, com larga geração em Travanca e à volta do concelho (Sameice, São Romão, etc.). Esta casa foi provavelmente residência desta família por mais de 400 anos. Entrou em declínio e viria a ficar em ruínas no início do séc. XX.

Condessa de Camarido em Travanca de Lagos

A data desta foto é de 1950. Na década de 60/70, a casa foi adquirida em hasta pública por Fernando Matias, natural de Travanca, tendo-a reconstruído de raiz (e que depois alugou `a minha avó - Maria Cerca). O facto da casa ter chegado a este ponto, pode estar relacionado com o complicado processo de partilhas da Condessa de Camarido. Segundo consta em documentos encontrados, pelos proprietários duma outra casa pegada a esta, também bastante antiga, que mantêm nos registo as antigas confrontações, confrontava com Condessa de Camarido. Ou seja, esta casa fazia parte da vasta herança da condessa de Camarido. À sua morte, a casa provavelmente já estaria numa fase de declínio, acabando por ficar em ruínas, e só quando se tornou um perigo público aos transeuntes terá sido vendida.

Dona Maria Isabel Freire de Andrade e Castro (1836-1905), herdeira das Casas de Bobadela e Camarido, 2ª Condessa de Camarido, que casou aos 17 anos com o seu tio paterno, Bernardim Freire de Andrade e Castro (1810-1867), Alferes de Cavalaria, Moço-Fidalgo da Casa Real, Comendador de Terena, na Ordem de Aviz, filho dos l°s Condes de Camarido. Camarido é uma zona de floresta na foz do rio Minho. O título foi criado por D. João VI e concedido por Decreto de 1822 a Nuno Freire de Andrade e Castro, para relembrar o feito de seu irmão, Bernardim, que nesse local resistiu heroicamente ao exercito Napoleónico.
Não tendo tido filhos de seu casamento, a Condessa de Camarido - a tia Patrocínio, segundo especialistas queirosianos, do romance “A Relíquia” -. faleceu viúva e sem geração, deixando os seus bens a instituições religiosas. Pela sua relação com um padre, que tinha um enorme ascendente sobre ela, acabou por passar quase toda a fortuna para a congregação a que ele pertencia, a do Espírito Santo. A família impugnou e houve um processo muito complicado.

Hoje a casa tem novos proprietários, herdeiros de Fernando Matias. O granito mantém-se mas sem o esplendor de outros tempos, que aliás, eu nunca conheci.
(bibliografia- "Raízes da Beira)