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quinta-feira, 13 de março de 2014

O crime da Pantera

Fig. 1

No início do séc. passado a nossa região da Beira estava bastante apaziguada, no que diz respeito a crimes violentos, bem diferente dos loucos anos do séc. XIX, especialmente a 1ª metade, pródiga em histórias de faca e alguidar. Um homicídio na Beira Alta em meados do séc. passado seria muito raro, contudo, quando sucedia, tornava-se famoso, como parece ter sido o caso do crime que ocorreu entre Travanca e Lagares, em 5 de abril de 1937, há quase 77 anos atrás, que ficou conhecido como o crime da pantera, tendo-se tornado célebre e largamente difundido. Segundo conta António Azevedo, de Travanca, mais conhecido por António Cabaço, e confirmado também pelo Dr. Francisco Antunes, que é uma referencia da história local, nesse fatídico dia de Abril, uma viúva de alcunha Pantera, numa acesa discussão com o seu amante, chamado Passinho, ambos de Lagares da Beira, em virtude da senhora não ter acedido aos intentos do seu companheiro, que queria certos bens em seu nome, e, voltando eles do registo de Oliveira do Hospital, talvez por um atalho, passaram por uma antiga ponte, que ficou conhecida daí em diante pela alcunha da viúva – Ponte da Pantera, o Passinho, seu amante, atirou-a ponte abaixo, ficando vários dias desaparecida.

Ponte da Pantera
Açude no rio Cobral

A questão tornou-se um caso de polícia, e a notícia fez correr muita tinta, vindo inclusive noticiada e caricaturada no periódico humorista lisboeta, Os Ridículos (fig. 1 e 4). O corpo, sem vida, já desnudo, apareceu dias depois preso nas margens do rio Cobral, descoberto por um travanquense, conhecido por Xico d’Amélia, numa zona do rio que hoje lhe deve também o nome – Xico d’Amélia, em tempos um recanto ótimo para banhos. O corpo terá galgado seis açudes e vencido muitos obstáculos até se encravar naquele lugar. Muita gente ocorreu ao local para testemunhar o ocorrido, incluindo o Dr. Francisco, que era ainda um miúdo de escola.

Fig. 4
O homicida Passinho foi capturado e preso, mas não se livrou, ao jeito das cantigas que fizeram sobre João Brandão, de lhe dedicarem em verso uma cantilena:

“No dia cinco de Abril
Um crime se passou
         José de Oliveira Passinho
  A Pantera assassinou”


terça-feira, 27 de janeiro de 2009

As Invasões Francesas de passagem por Travanca de Lagos - Novos dados


Esta notícia , editada no Brasil pela Gazeta do Rio de Janeiro, de 29 de Maio de 1812, relata o ponto de situação do nosso exército que se encontrava estacionado em Celorico da Beira, onde estava o Quartel General de Wellington . Os Franceses batiam em retirada, perseguidos pelas nossas tropas, mas deixavam uma onda de terror e devastação à sua passagem, com queimadas e pilhagens. Contudo, algumas Terras conseguiam-se organizar e tentavam defender-se. Em Avô assim aconteceu, os Franceses não entraram, foi um exemplo de resistência e combate, capitaneados por António de Mello Pinto Cardoso e Francisco Madeira da Costa, tendo repelido cinco vezes os seus ataques, sendo os invasores em número de 400 homens. Vem escrito neste recorte que em Travanca de Lagos e Lagares, também não entraram, por terem visto alguns paisanos armados. Se assim foi, houve resistência do Povo de Travanca , que se preparava para defender a sua terra, vigiando a sua aldeia de forma a não ser surpreendido. É pena que estes paisanos não tenham um nome para que lhes pudessemos prestar hoje a devida homenagem e mostrar o nosso reconhecimento.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A vida de João Brandão (1825-1880) – CAP. III



O Padre Portugal era procurador do Visconde de Almeidinha. Tinha vindo a negócios com o fim de vender as propriedades de que o Visconde era possuidor na zona de Várzea de Candosa. Ficou hospedado numa casa do Visconde onde residia também uma “amiga “ dele – Dona Rosa Cândida de Nazareth e Oliveira. Segundo relatos da época, terá sido pelo mau comportamento da dita D. Rosa que o Visconde se apressou em vender todas as suas propriedades na região.

João Brandão terá sido um dos principais compradores, tendo sido mais tarde acusado do roubo e assassinato do dito procurador. Desta condenação, que depois se veio a provar injusta, perpectuada pelos seus inimigos políticos, dado que os verdadeiros assassinos foram a própria Dona Rosa e um cúmplice seu amante, que fazia parte do grupo do João Brandão, “O Faca do Mato” – José de Matos, resultou a extradição do João Brandão para a África Oriental com a pena de trabalhos públicos para toda a vida.

Todavia gozou durante certo tempo dum estatuto especial, tendo unicamente de se apresentar regularmente às autoridades não podendo apenas ter bens em seu nome. Conseguiu também rodear essa questão, pois viveu o resto da sua vida em Benguela, dono de uma grande propriedade açucareira, onde produzia aguardente, até ser assassinado pelos seus inimigos da metrópole. Efectivamente, a 17 de Maio de 1880 chega à província um novo governador, o conselheiro João das Neves Ferreira Júnior, que traria ordens para o eliminar de vez, o que de facto aconteceu nesse ano, a 17 de Novembro.

Após a sua morte ficaram, as canções, as amantes, os esconderijos, as histórias exageradas, a lenda…

Curiosidade

A prisão de João Brandão no dia 7 de Maio de 1866, na casa do pároco de Lourosa , foi levada a cabo pelo Administrador de Oliveira do Hospital, Luís Pereira de Abranches, junto com cabos de polícia e regedores das freguesias da Bobadela e de Travanca de Lagos.

Amantes

Entre outras terras, também Travanca reclama uma amante de João Brandão. Segundo a lenda era por trás da casita das campas, no largo da igreja, que João se escondia muitas noites.

Mitos (contestado por Historiadores)

I Aos doze anos comete o seu primeiro homicídio, na pessoa de um pastor de Gouveia, que mataria como mero exercício de pontaria.

II Repartidor público da riqueza, dizendo que roubava aos ricos para dar aos pobres.

Canção 1

Lá vai o João Brandão
A tocar o violão
Casaca da moda na mão
E atão! E atão! E atão!
Trai trai, olaré, trai trai
Era a moda do meu pai
Oh pastor, lavrador, enganador
rinhinhi, rinhinhó, á-á-á, ó-ó-ó

Canção 2

Já lá vais para o degredo
Adeus ó João Brandão
A morte d’aquele padre
Foi a tua perdição.

A vida de João Brandão (1825-1880) - CAP. II



João Victor da Silva Brandão – “ O João Brandão” – nasceu no dia 1/03/1825, no Casal da Senhora, no seio de uma família de médios recursos.

Era filho de Manuel Rodrigues Brandão e Antónia Rita, que junto com os seus seis irmãos constituiam a família dos Brandões do Casal. Em Midões viviam os seus primos, os Brandões de Midões, uma família de mais prestígio. Tinham uma irmã casada com o morgado de Midões e um irmão casado com a irmã do ministro do Reino, Rodrigo da Fonseca Magalhães.

O seu padrinho de baptismo foi Roque Ribeiro de Abranches Castelo Branco, a quem viria a ser concedido o título de Visconde de Midões pelos serviços prestados à causa Liberal.

Nasceu num período conturbado, em pleno Liberalismo e guerra civil, tendo a sua família um papel importante na causa liberal na região. Não foram bons tempos no Reino e em particular na Beira. A angústia e o medo imperavam, sendo a justiça feita à lei da bala. Foi assim durante mais de meio século.

De 1846 a 1851 fez parte de um batalhão de Cartistas, opositor aos seus primos de Midões que eram Constitucionalistas/Setembristas, tendo capitaneado o Batalhão de Caçadores de Sªº João de Areias.

Foi eleitor pelo concelho de Midões, vereador e fiscal da Câmara de Midões. Em 1853 terá sido o seu período áureo, tendo sido recebido pelo ministro do Reino, o qual lhe concedeu grandes poderes. Em finais de 1854 deu-se o assassinato do Ferreiro da Várzea, um dos pontos mais negros da vida de João Brandão.

E 1863 casou com Ana Eugénia de Jesus Correia Nobre, uma senhora de boa condição e fortuna que lhe conferiu estatuto social, tendo-se mudado para casa dela, em várzea de Candosa.

Foi aliás, nesta povoação, que após várias peripécias, foi acusado da morte do padre Portugal e por ela condenado ao degredo em África.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

No tempo de João Brandão - Cap. 1



Midões, na 1ª metade do séc. XIX, foi o centro nevrálgico das movimentações políticas e lutas partidárias. Era sede de concelho e gozava de um estatuto importante na região.

Entre 1828 e 1834 imperou em Portugal D. Miguel, o rei Absoluto. Nessa época os partidários do liberalismo foram perseguidos e presos. Dessa facção faziam parte a família dos Brandões, que na época estava dividida em dois ramos - os Brandões de Midões e os Brandões do Casal ( da Senhora). Desta última, Manuel Rodrigues Brandão era o seu representante e era também pai do famoso João Brandão.

As perseguições movidas pelos Absolutistas levaram na época, Manuel R. Brandão e três sobrinhos dos Brandões de Midões a andarem fugidos, a monte durante meses com medo de serem presos ou mortos.

Quando estalou a guerra civil em 1832/34, saíram vitoriosos os Liberalistas. Seguiu-se um período de desordem e vinganças, acrescido ainda do nascimento de bandos de guerrilheiros, que não se quiseram desmobilizar da guerra. Eram sobretudo Miguelistas vencidos, mas também ex-combatentes, apenas com o objectivo de roubar e matar, fazendo disso o seu modo de vida.

Um exemplo paradigmático era a quadrilha do "Caca" , vulgo os "Garranos", responsáveis por inúmeros assassinatos, de entre os quais, a morte do padre Figueiredo de Fajão, tendo-o obrigado a andar pelas ruas descalço e cortando-lhe por fim as orelhas, ou o caso do padre de Castanheira, que o foram buscar ao altar onde estava a dizer a missa e o mataram. Haviam ainda outros grupos de guerrilhas: - os poetas de Sameice; os Crespos de Lagos; os Calistos da Lagiosa; Agostinho Vaz Pato de Abreu e castro de Santa Ovaia; Padre Joaquim de Carregoselo, que levava tudo diante de si a ferro e fogo; Estanislau Xavier de Pina, etc..

Nessa época, referente a Travanca de Lagos surge um nome - Manuel da Silva. Era um sicário do bando Brandoático, de Manuel R. Brandão - Brandões do Casal (nessa época João Brandão era pouco mais que uma criança).

De entre outras "façanhas" de que Manuel da Silva foi incriminado, contam-se a morte horrorosa do vigário do Ervedal (que mais tarde se vieram a descobrir os verdadeiros culpados) e esteve na Matança da Páscoa, que consistiu no cerco ao bando do Caca no seu quartel general , que se tornou Lagares. Foi assassinado por Manuelzinho Brandão, primo de João Brandão, tendo sido cúmplice o seu irmão Francisco Elísio.

Com efeito, após a chamada revolução de Setembro de 1836, houve divisão entre os liberais: - os Cartistas, defensores da carta constitucional- Brandões do Casal, mais conservadores; os Setembristas, defensores da Constituição de 1822, mais radicais -Brandões de Midões.
Os Brandões do Casal e os de Midões tornaram-se assim inimigos mortais, perpetuando o ódio e a matança ainda por muitos anos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

As Invasões Francesas de passagem por Travanca de Lagos




Na passagem dos franceses em 1811 pelo concelho de Oliveira do Hospital, Maria Emília do Socorro Pinto Ribeiro Tinoco, nascida em 1789, e duas tias, Maria Teresa de França e Ana Angélica de França , ( filhas de Bento Ribeiro Pinto , que foi juiz ordinário de Oliveira do Hospital ), fugindo da quinta das Vinhas Mortas, onde viviam, para Travanca de Lagos, foram atacadas pelos Franceses na quinta do Pedrógão em Travanca. As tias morreram e ela, apesar de atingida, escapou por ter sido considerada morta. As Tias foram sepultadas na Igreja de Travanca de Lagos.
JDuarte

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O caso do pároco de Travanca de Lagos



AS FARPAS

CHRÓNICA MENSAL

DA POLÍTICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

TERCEIRA SÉRIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878


RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ























As farpas são uma das mais conhecidas e mordazes publicações satíricas de finais do séc. XIX, escritas por Eça de Queirós e Ramalho Ortigão e publicadas em fascículos entre Maio de 1871 e 1872, altura em que Eça abandona a publicação, mas continuando a ser escrita por Ramalho até 1882.
“São uma admirável caricatura da sociedade da época. Altamente críticos e irónicos, estes opúsculos publicados entre 1871 e 1872 satirizam entre outros, com requintado e inteligente humor, a imprensa e o jornalismo partidário ou banal; a Regeneração, e todas as suas repercussões, não só a nível político mas também económico, cultural, social e até moral; a religião e a fé católica; a mentalidade vigente, com a segregação do papel social da mulher; a literatura romântica, falsa e hipócrita. Coligindo os opúsculos mensais da capa alaranjada e decorados com o diabo Asmodeus - o génio impuro de que falam as Escrituras - e que a cada número se esgotavam nas bancas de Lisboa (o primeiro número esgotou uma primeira edição de 2000 exemplares).”

Pois bem, nesta III série, vem em destaque um episódio muito curioso que se passa em Travanca de Lagos. O caso relaciona-se com o pároco de Travanca que, provavelmente, seria o prior José Mendes Abreu e Costa. A seguir transcrevo o texto integral que diz respeito a este episódio e tal como os autores na época, escuso-me a acrescentar comentários desnecessários.

“Deram-se ultimamente dois casos profundamente característicos: o caso de Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.
No caso de Joanna Pereira vemos três reos confessos e convictos de três crimes: Joanna, de adultério; Carlos, de tentativa contra o pudor por meio da chlorophormisacão; o carroceiro, da remocão de um cadáver; todos três cúmplices e conniventes no crime de cada um.

Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes attentados e despedindo os reos em paz!

No caso do parocho de Travanca de Lagos, o réo e accusado de ter falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a oito annos de degredo para a costa ds Africa!

O primeiro caso e um tríplice attentado contra a ordem social. Asociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.
O segundo e uma contravencão de um regulamento administrativo. A sociedade não só o julga mas pune-o com uma das máximas penas do código.

* * * * *
Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus co-réos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido como parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnacao d'este e uma iniquiedade monstruosa.
O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a oito annos de degredo, e crime unicamente perante a letra de um regulamento de carácter não só transitorio mas arbitrario--o regulamento do serviço militar.

O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta. Alterar um número, escrever um algarismo por outro, so pode involver intencão criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.

Viciar a data de uma letra ou de um contrato e indubitavelmente um grave crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da indústria, ou o da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o facto de isemptar do serviço militar um cidadão, nao é offender um interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas as sociedades teem em que deixe de haver militares.

* * * * *
O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado opunido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos análogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos benefícios à civilisacão e à humanidade. Daria em resultado a eliminacão do militarismo e da guerra.

Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:

Os cadávares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma vez para sempre, com o uso dos cemitérios e com a prática de enterrar os mortos.

Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_

Finalmente, para o facto da seleccão da espécie, os maridos seriam substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas alcoolicas--o que tornaria o casamento inútil e a familia impossível, convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos únicos instrumentos da perpetuidade da raça.

* * * * *
Expond0 simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade os resolveu, achamos inútil accrescentar commentarios, e fazemos unicamente à sociedade os nossos cumprimentos.”
Jduarte