Mostrar mensagens com a etiqueta pessoas de travanca com historia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pessoas de travanca com historia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 9 de julho de 2016

2 - Pessoas de Travanca com história





Comendador António da Costa Carvalho




António da Costa Carvalho, figura ilustre  do panorama nacional de meados do séc. XX, nasceu em Travanca de Lagos, em 20 de Março de 1883, tendo falecido  em Lisboa , na freg.ª  de N.ª S.ª de Fátima,  em 27 de Dezembro de 1977, com 94 anos. Embora tenha dividido a sua vida entre o Brasil, Lisboa e Tábua, vila de onde era originária a sua esposa, ainda assim, deixou uma obra emblemática na sua terra natal, Travanca de Lagos. Foi agraciado com o grau de Comendador da Ordem da Benemerência a 2 de Outubro de 1962.

Era filho de  António da Costa, canastreiro de profissão e natural da Bobadela, terra de seus avós paternos, que se chamavam António Costa e Emília de Jesus, também operários. A sua mãe, Júlia da Conceição Carvalho, casou  aos 24 anos com o seu pai, de  26 anos, em 17 Abril de 1872. Os seus avós maternos eram naturais de Travanca e moravam no Zambujeiro. O avô chamava-se  Manuel Carvalho e era ferreiro e sua avó chamava-se Felizarda da Silva.

A sua família era conhecida com a alcunha dos Triplos. Os seus pais, segundo se depreende da análise dos registos paroquiais, foram melhorando economicamente a sua vida visto que, de operários (canastreiros) nos primeiros anos de casamento, passaram à condição de proprietários já durante o nascimento dos 2 últimos filhos. Portanto, tudo leva a querer que o Comendador terá nascido no seio de uma família remediada, sendo ele o 3º filho,  e algo numerosa também. De facto, teve 4 irmãos. O mais novo chamava-se Hermínio da Costa Carvalho e casou-se, em 1916, com Dona Maria Piedade Soares da Costa Freire, pertencente a uma prestigiada família de Travanca. Teve, no entanto, o infortúnio de falecer bastante cedo, no fatídico ano de 1918, com apenas 32 anos, vítima da Pneumónica, um flagelo que tocou muitas outras famílias de Travanca.

O irmão mais velho, que se chamava José da Costa Carvalho, nasceu em Travanca em 1874. Casou com Conceição Dias e tiveram 2 filhas,  Aurora e Esmeralda, estas também com geração. Depois nasceu o irmão Adolfo Cândido, em 1877, afilhado do padre Luis Cândido Soares de Albergaria e de Dona Maria Amélia Soares de Albergaria, a grande matriarca da Quinta das Hortas, de Travanca. Seguidamente nasceu o irmão Basílio, em 1879, afilhado do Dr. Basílio Augusto Soares da Costa Freire, que foi um notável professor de Anatomia da faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, outra figura ilustre de Travanca que marcou o seu tempo. 

Quatro anos mais tarde, em 20 de Março de 1883,  nasce o Comendador António da Costa Carvalho. Foi batizado em 1 de Abril desse ano, com apenas 12 dias, na igreja matriz de Travanca de Lagos. O seu padrinho foi o benemérito Travanquense, Coronel António Rodrigues Nogueira, que vivia na atual sede da junta de freguesia de Travanca de Lagos. Por fim, em 1886, nasceu o irmão mais novo, o Hermínio, tendo sido seu padrinho um tio abastado, irmão da mãe,  e grande proprietário da terra, que foi  professor do ensino secundário no Porto, chamado Manuel Carvalho da Silva. Este último também era tio da Poetisa Maria Amélia Pinto Carvalho de Almeida, portanto, sua prima, falecida em 2010 e que deixou uma vasta obra literária, com muitos prémios acumulados na sua longa carreira,  e cujo espólio pode ser apreciado no seu museu, no Zambujeiro,  junto à sua antiga residência.

Bastante novo, o Comendador emigrou para o Brasil à procura de fortuna, ainda no final do séc. XIX, mas, segundo consta, não foi sem antes ter experimentado a profissão da família, que seria canastreiro. Regressado do Brasil, supostamente com uma situação financeira confortável, montou escritório em Lisboa, na rua Del'Rei, 134, como Capitalista. Desde 1903 até 1917 fixa residência na rua Serpa Pinto nº 28 - 1º, e escritórios na rua do comércio e rua Aurea, assim consta no Anuário Comercial de Portugal.

Fig.1e2 -António Costa Carvalho 
e Sarah Beirão





















Em 15 de Setembro de 1910, casa com a conhecida escritora Tabuense Dona Sara Vasconcelos Carvalho Beirão, mais conhecida por Sarah Beirão, filha do conhecido médico Tabuense Dr. Francisco Beirão. Nascida em 29 de Julho de 1880, na quinta do Freixo, em Tábua, num solar do séc. XVIII, local onde nos anos 60 do séc. XX, conjuntamente com o marido, fundou a primeira Casa do Artista Portuguesa. Uma obra social inovadora e de grande mérito, que viria a albergar artistas e escritores até  à década de 80. Sarah Beirão, para além de escritora, foi também Publicista, ativista dos direitos das mulheres e Filantropa, tendo-se  distinguido no panorama cultural e político português dos anos 30 e 40.

Fig. 3, 4,5 - Auto Garage Nagant, em Coimbra
            















António da Costa Carvalho, dotado de um grande espírito empreendedor, esteve desde sempre ligado aos negócios, tendo sido um empresário de sucesso, multifacetado. Cedo investiu no ramo automóvel tendo sido, ainda antes da década de 20, proprietário  de uma Garagem em Coimbra, com sede na avenida Sá da  Bandeira, 85,  chamada Auto Garage Nagant (fig.3, 4 e 5). Importava carros da marca belga Nagant que, segundo a publicidade de então, eram ótimos carros de aluguer. Mais tarde, vem a  mudar de nome para Garagem Moderna, como sociedade de Carvalho e Telles, ambas na avenida Sá da Bandeira (fig.6). Na década de 20, em Lisboa, vem também a ser  proprietário de um salão de venda e exposição de carros chamado Nacional Stand, que fazia comércio de carros novos e usados, com sede na avenida da Liberdade (fig.7). Consta que terá sido dos primeiros importadores de táxis para Lisboa e que terá sido proprietário de uma praça de táxis, alegadamente, sediada na avenida da república, perto do prédio onde viria a residir, junto da famosa Pastelaria Versalhes.

Fig. 6 - Garagem Moderna, em Coimbra
Fig. 7 - Nacional Stand, em Lisboa

Em 1918,  fixa residência em Tábua. Para a decisão do casal  não terá sido alheia a  morte do seu sogro, o Dr. Francisco Beirão. Em Tábua inicia, então, uma atividade ligada à exploração da madeira e, em 1919, era já proprietário da fábrica de serração  a vapor, A Taboense (fig.8). Simultaneamente era representante do Banco Popular Português e agente dos Seguros A Latina (fig.9). No Anuário Comercial de Portugal, de 1921 a 1923, consta como agente do banco Luso Hispanhol e, em 1929, apenas é descrito  como proprietário e produtor de vinhos em Tábua.


Fig. 8 - Fábrica de serração a Taboense


Fig. 9 - Agência de seguros a Latina

Ao mesmo tempo, o Comendador teve a sua atividade de empresário ligado ao mundo do espetáculo, tendo sido um Produtor de teatro e cinema de sucesso (fig10). Foi acionista  fundador da Tóbis Portuguesa, a grande produtora de filmes do ciclo dourado do cinema português, detentora dos estúdios do Lumiar (fig.16). Financiou vários filmes como As Pupilas do Sr. Reitor (fig11), Bocage(fig.12) ou a Severa (fig.13 ), de Leitão de Barros, que seria o 1.º filme sonoro produzido em Portugal e que lhe viria a dar um grande lucro, por ter adquirido os direitos de distribuição no Brasil (fig.14).


Fig. 10 - O Comendador, 1º à  esquerda, como Produtor de cinema 



Fig.11 - As Pupilas do Sr. Reitor
Fig. 12 -Bocage 


       
Fig. 13 - A Severa
Fig. 14 - A Severa em exibição no Brasil

Esteve, também, muito ligado ao empresário e produtor Vasco Morgado, marido da célebre artista Laura Alves (fig.15). Financiou muitas das suas peças no teatro Monumental e Revistas do Parque Mayer (fig.17,18). Foi amigo pessoal de Igrejas Caeiro, conhecido produtor radiofónico, também ele um grande nome do teatro, do cinema e da vida política portuguesa dos anos 50. Este último viria a ser administrador da  Fundação Sarah Beirão/ António Costa Carvalho durante mais de 30 anos.


Fig. 15 - Vasco Morgado e Laura Alves
Fig. 16 - Estúdios do Lumiar



Fig. 17 - Peça no Teatro Monumental

Fig. 18 - Peça de teatro com Laura Alves

De 1945 a 1947,  preside ao concelho fiscal da Companhia Portuguesa de Filmes. De 1948 a 1950, vive na avenida Duque d'Ávila, 94 e é vice presidente da Tóbis portuguesa e proprietário em Tábua. À parte disso, o casal era  proprietário de muitos prédios em Lisboa e tinham mais negócios ligados ao imobiliário. Do ponto de vista cultural, participa com Sarah Beirão em serões literários na tertúlia Tábua Rasa, um marco da cultura portuguesa, de meados do séc. XX.


Fig. 19 - Recepção ao Presidente, no dia da inauguração da Casa do Artista

Fig. 20 - Discurso na  Casa do Artista, no dia da inauguração
Gozando de uma grande fortuna, fruto de muitos anos de trabalho e bons negócios, e talvez por não terem tido descendência direta, quiseram deixar um legado para o futuro, criando uma Fundação. O projecto da sua criação inicia-se na década  de 60 e viria a ter o nome do casal, Fundação Sarah Beirão/ António Costa Carvalho. A sede  situava-se na Quinta dos Freixos, em Tábua, uma aprazível propriedade da família de Sarah Beirão, com quase 40 hectares, onde foi construído de raiz uma casa de repouso/ Lar, para artistas e intelectuais, representando um sonho antigo dos beneméritos que, ao logo das suas vidas, privaram de perto tanto com escritores, como com artistas de palco, tantas vezes desamparados  no fim das suas carreiras. A sua missão era proporcionar a estes artistas  um fim de vida com dignidade e ajustado à sua condição, propósito que terá cumprido até à década de 80, funcionando atualmente como uma instituição  de solidariedade social para acolhimento de idosos. Em 27/9/1965 é  inaugurada então, com pompa e circunstancia, pelos notáveis da região, pelo ministro da Saúde, pelos vários representantes dos órgãos regionais e concelhios e por sua Ex.ª, o Presidente da República, Almirante Américo Tomás.(fotos 19,20 e 21)


Fig. 21 - Recorte de notícia  da inauguração

Fig. 22 - Logótipo da Liga de Melhoramentos, na déc. 60

No fim da década de 60, encorajado por outro benemérito de Travanca, José da Silva Garcia, que na época presidia à Liga de Melhoramentos, reaproxima-se de Travanca, a sua Terra Natal. Verdadeiramente esta aproximação já se teria iniciado em Fevereiro de 1961, quando  o mesmo o convidou para sócio de honra da recém-formada Liga.(fig.22). É nesse período que, influenciado pela personalidade de José da Silva Garcia e principalmente pelo Dr. Álvaro dos Santos Madeira, patrocina e financia a criação de um complexo de assistencia social em Travanca de Lagos.

O  Dr. Álvaro, ilustre médico e benemérito de Travanca, era diretor do Diário de Coimbra e amigo pessoal do Dr. Bissaya Barreto, o qual presidia a Junta Distrital de Coimbra, que tinha uma importante ação no campo social e na saúde pública do distrito. Este organismo vinha patrocinando a construção quer de jardins de  infância, conhecidos como Casas da Criança, quer de Lares/escolas de meninas em risco, denominadas  Escolas de Educação e Preparação para Raparigas. Assim, com este triângulo de influências, aliado à boa vontade do Comendador, estavam reunidas as condições para a criação, em Travanca de Lagos,destas ditas infraestruturas. O conjunto assistencial ficaria sob a alçada da Junta Distrital de Coimbra e passaria a beneficiar, também, da sua gestão e financiamento futuro.


 

Fig. 23, 24 e 25 - Recortes de notícias do anuncio do projeto assistencial em Travanca de Lagos


A casa da Criança receberia crianças da localidade em idade pré-escolar e a Escola receberia meninas mais velhas, órfãs ou de baixa condição socioeconómica, funcionando a nível distrital, mas com prioridade para as crianças locais. Para a instalação da escola foi adquirida, em 1968, a casa do Padre António Mendes Correia (fig.26), ainda familiar do Dr. Alvaro, e o projeto da Casa da Criança, a construir num terreno anexo, ficou a cargo do Arquiteto Edmundo Tavares (fig.27), um amigo e apaixonado por Travanca. Mas, todo o processo  irá sofrer algumas contrariedades e demorará mais de meia dúzia de anos a ser executado.

Fig. 26 - Antiga casa do Padre António Mendes Correia

De facto, o projeto da escola de "raparigas" foi abandonado ao fim de 5 anos, corria o ano  de 1973, dando lugar a um lar de Idosos que acabaria por ser inaugurado já depois de  1976, após a morte do Dr. Bissaya Barreto e o conturbado período revolucionário. Em setembro de 1975, chegou ainda a ser ponderado o uso da casa para ocupação temporária pelos retornados do Ultramar, a pedido da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital. Foi, no entanto, finalmente, inaugurado o Lar (fig. 33), com o nome de  Sarah Beirão/ António da Costa Carvalho,  com a presença de altas individualidades locais, regionais e distritais, sendo também descerrados, nas instalações do Lar, os bustos dos beneméritos que tornaram possível a obra (fig.27 a 31). A Casa da Criança (fig.32) foi inaugurada, pelo Dr. Àlvaro, em 1 de dezembro de 1973, começando a funcionar com 4 crianças, todas de Travanca, 3 funcionárias e uma educadora regente, chamada Maria Alice Baptista Morais, natural do Concelho de Cantanhede.







Fig. - 27, 28, 29, 30 e 31 - Fotografias do dia da inauguração do Lar  de  Travanca de Lagos


O complexo criado, de elevado alcance social, colocou Travanca de Lagos, nessa época, num plano superior, servindo de exemplo a muitas terras da Beira Interior, tão desfalcadas deste género de recursos sociais. O legado que esta ilustre figura de Travanca de Lagos deixou à sua terra foi grande, tendo em conta o que representou para o Povo, mostrando estar à frente do seu tempo e também refletindo um grande amor pela terra que o viu nascer.


Fig. 32 - Casa da Criança Sarah Beirão

Fig. 33 -  Lar Sarah Beirão/ António da Costa Carvalho

Por contingências várias, o complexo por si patrocinado deixou de estar sob a alçada  da Junta Distrital, passando a responsabilidade, em 22 de Julho de 1986, primeiro, para a Assembleia Distrital e posteriormente para a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital.

O Lar infelizmente encerrou há cerca de 10 anos, por falta de condições de funcionamento, aguardando os últimos anos, segundo consta, condições de viabilidade económica. Se, no tempo em que foi criado, era mais usual os idosos  viverem com as suas famílias, nos últimos anos vive-se um novo paradigma, em que as famílias não têm condições para manter o idoso no seu seio. Sem o Lar, Travanca tem visto os seus idosos partirem para as terras vizinhas. Quanto ao Jardim de Infância, este tem sobrevivido com dificuldade lutando, todos os anos letivos, com falta de crianças para o manter em funcionamento esperando, talvez, por um novo projeto que o relance.

A preocupação pela Educação pré-escolar e pelo destino dos idosos da freguesia deveria manter-se hoje e perpetuar-se no futuro, mantendo o desígnio dos seus fundadores e o sonho que foi de uma geração de travanquenses. Será da responsabilidade da nossa geração continuar a obra, refundando os ideais da Fundação.


Fig. 34 - Momento solene de atribuição do Grau de Comendador

Fig. 35 - Agradecimento do Comendador ao presidente Américo Tomás

António da Costa Carvalho, na sequência da sua obra social, nomeadamente a sua fundação, viria a ser agraciado com o grau de Comendador da Ordem da Benemerência, atual Mérito, em 2 de Abril de 1962, por sua Ex.ª o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, formalizado no ato da inauguração da casa do Artista em 27/9/1965 (fig.34 e 35 ).


Fig. 36 - Recorte de notícia da homenagem
 do Povo de Travanca
Fig. 37 - Recorte de notícia  sobre donativos para a reparação da Igreja

Por parte do povo de Travanca o Comendador foi homenageado por diversas vezes. Em junho de 1972, aproveitando as festas de São Pedro, na sede da Casa do Povo e juntando inúmeras figuras públicas, locais e regionais, amigos e muita gente do povo, foi proferido, de forma muito sentida o agradecimento ao benemérito, tendo esse reconhecimento sido profundamente sentido pelo Comendador como um dia sem igual na sua já longa vida (fig.36). Tiveram a palavra o Dr. Àlvaro Madeira , Dr. Vasco Lencastre, Arquiteto Edmundo Tavares, ator Igrejas Caeiro e Dr. Tito Bettencourt.


 

Fig.38, 39 e 40 - Casa onde nasceu o Comendador e lápide evocativa


Fig. 41 - Vista ampla da casa onde nasceu o Comendador

O homenageado, após o seu discurso,  entregou ao presidente da Liga de Melhoramentos e vogal da Fábrica da Igreja um cheque no valor de 100 contos,  para auxilio nas despesas de restauro da Igreja (fig.37), e prometeu ainda, após esse restauro proceder à reparação da Casa Paroquial. Foi de seguida organizado um cortejo junto à casa dos seus Pais (fig.38,40e41), local do seu nascimento, e descerrada uma lápide evocativa (fig.39),  usando da palavra  D. Maria Amélia carvalho Almeida, sua prima. Seguiu-se o descerramento das placas  que dão ao largo da igreja o nome de "Praça Comendador António da Costa Carvalho" (Fig.42 e43), cerimónia durante a qual falou o ator  Igrejas Caeiro.


Fig. 42 - Lápide evocativa
Fig. 43 - Praça Comendador António da  Costa carvalho






Os Travanquenses, ainda em jeito de  agradecimento, fizeram uma homenagem, em 1975, organizada pelo Poeta e grande amigo de Travanca, o Sr.Feliciano da Silva, que juntou, num almoço em Lisboa, muitas figuras da Terra, familiares e amigos (fig.44 a 46).


Fig. 45 - O Comendador com
a prima D. Maria Amélia
Fig. 44 - Feliciano da Silva e
 Eugénio de Carvalho

 
Fig. 46 - Durante a homenagem  com familiares

Com uma vida cheia e plena, faleceu aos 94 anos na freguesia de Nª Sª de Fátima, em Lisboa, tendo sido sepultado no cemitério de Tábua, junto da sua companheira Sarah Beirão. Morreu o Homem, ficou o seu legado...


Nota final - Queria agradecer, uma vez mais, às minhas fontes, o Sr. Feliciano da Silva, a Dr,ª Maria Leonor de Almeida, a D. Regina Madeira  e especialmente ao Dr. Fernando Garcia, pelo contributo inestimável neste artigo e também à Fundação Sarah Beirão / António da Costa Carvalho, nas pessoas do Dr, Sérgio da Cunha Velho, Presidente da direção, e D. Isabel Camisola, pela autorização de consulta do arquivo do Comendador e reprodução de alguns documentos aqui expostos, que muito enriqueceram o trabalho. Um agradecimento muito especial à Dr.ª Fátima Pais pela ajuda e amizade.






domingo, 2 de agosto de 2015

A Tuna Travanquense



A Tuna Travanquense 

contributos para a sua história



fig.1 - Estandarte da tuna Travanquense


A Tuna de Travanca de Lagos foi durante décadas, juntamente com o grupo cénico (este provavelmente de inicio mais tardio), um dos ex-líbris da aldeia. A sua criação, para além de desempoeirar o panorama cultural de então, veio animar, com certeza, os bailaricos e as festas da povoação. A sua presença impor-se-ia em cerimónias e acontecimentos solenes e seria presença assídua nas festas de São Pedro.



De cariz popular, à semelhança de muitas outras tunas da sua época cujos reportórios, segundo Francisco Vieira, representariam a mais genuína tradição musico-coriográfica da província, compondo-se de fandangos, verdegaios, chotiças, valsas, sobretudo de 2 passos, bailaricos, contradanças e corridinhos, e os seus principais instrumentos seriam o harmónio, a gaitinha, a guitarra e a flauta.


Fig.2 - Sociedade  Beneficente e Recreativa, nos anos 20



Se na sua génese terá sido constituída essencialmente por “músicos de ouvido”, com o tempo, tornou-se uma verdadeira escola de música, formando várias gerações, desde pais a filhos. A sua sede seria na Sociedade Beneficente e Recreativa, antiga Casa do Povo ("velha") (fig.2). Mas, com o passar dos anos a tuna foi perdendo o fulgor, por um lado, talvez devido aos sucessivos surtos migratórios que foram assolando a região, quer para África e Brasil, quer para a capital, por outro lado, também devido ao aparecimento de novas modas e agrupamentos musicais, como o rock-roll, grupos de baile e a chegada das aparelhagens, etc., que terão retirado à tuna espaço e protagonismo, até que desapareceu em meados dos anos 50 do séc. XX.

No entanto, ainda em meados dos anos 40, a tuna conheceu um novo impulso com a criação dum organismo denominado C.A.T., Centro de Alegria no Trabalho, da Casa do Povo de Travanca de Lagos, integrando também o grupo de teatro local, cuja direção era presidida pelo Dr. Álvaro dos Santos Madeira e secretariada por Ivo Teles Nunes Pereira (fig.3), período no qual se promoveram diversos espetáculos conjuntos com imenso êxito que, geralmente, se iniciavam com uma récita seguida de baile pela noite dentro.



Fig.3 - Casa do Povo (nova) -1944

A título de curiosidade, já no final dos anos 20, o período florescente da Tuna, em todos os aniversários que Luís Martins Borges (fig.4) celebrava em Travanca, por altura de 15 de Setembro, o grupo musical tinha por tradição tocar o seu reportório à porta de sua casa (fig.5) e o distinto senhor, um dos patronos da tuna nessa época e um grande benfeitor de Travanca, mandava-os subir e oferecia bolos e vinho.

Fig.4 - Luis Martins Borges
  
Fig.5 - Antiga casa de Luis Martins  Borges em Travanca

Após um longo período de esquecimento, só nos anos 90 a tuna voltaria a ser referida quando foi descoberto, por acaso, na casa do povo, o seu estandarte (fig.1) e uma foto antiga de conjunto, por essa altura, já era desconhecida da maioria das novas gerações (fig.6). Essa foto foi aqui publicada, em 2008, sob o título “crónicas da minha terra cap. I”, tendo-se identificado todos os elementos que a compunham e datado como sendo de 1929/30. Essa preciosa tarefa, que aliás marca o início deste blogue como o despertar para a história de Travanca, foi realizada com a ajuda dos inestimáveis irmãos Nunes Pereira, o Sr. Ivo, que com a sua prodigiosa memória muitas vezes desbloqueou as charadas históricas que foram aparecendo, e o Sr. Pereira, um homem culto e de grande lucidez, que, como foi dito então, faziam parte da tuna quando crianças, infelizmente falecidos no ano transato, contavam já mais de 95 anos.


Fig.6 - Tuna Travanquense 1929/30

Por essa altura, o Sr. Ivo revelou que houve uma 1ª fase da tuna, anos antes, no início do séc. XX, onde o pai participava e era presidente o mítico Mercês. Na ocasião, era impensável recuar na história da tuna até ao inicio do século mas, recentemente, numa recolha de fotografias antigas pude apreciar uma foto surpreendente, que poderá estar relacionada com essa 1ª tuna. Uma foto de época, belíssima, reveladora dos 1ºs passos do séc. XX em Travanca, e que aqui se edita pela 1ª vez (fig.7). Pertencia ao espólio de Teodorico da Silva Aires, também retratado na foto, estando presentemente na posse do atual presidente da junta, o Sr. António Manuel Soares, que gentilmente ma permitiu reproduzir.

Fig.7- Tuna Travanquense 1909/14


A árdua tarefa que tem sido investigar esta foto agora que, infelizmente, não podemos contar com a ajuda dos saudosos irmãos Nunes Pereira, conta com mais de um ano de pesquisa, tendo-se já identificado aproximadamente 50% dos retratados e concluído que terá sido tirada por volta de 1909/14.



No decurso da investigação foram-se conhecendo mais tunos, desta fase anterior do agrupamento musical, que não constam desta foto como, por ex., o caso de Manuel da Silva Neto (fig.9), o conhecido proprietário e negociante de Travanca do inicio do séc. XX, que tinha uma loja comercial chamada “A Nova Aurora”, com residência no 1º andar (fig. 8), existido ainda a flauta com que tocava, atualmente na posse da sua sobrinha, Dona Conceição Brito, ou ainda, o caso de António Nunes Pereira, conhecido por António Carteiro, pai do Sr. Ivo, que não parece constar na foto, e que era o responsável pela distribuição do correio em Travanca, chegando a ter os 4 filhos na tuna da geração seguinte (fig.10).



Fig.8 - Loja Comercial e residência da família Silva Neto
Fig.9 - Manuel da Silva Neto


Por outro lado, para além de reportar a tuna, esta foto permite-nos recuar no tempo, até ao final do séc. XIX, podendo contribuir assim, também, para o estudo das famílias de Travanca. Nesse sentido, identificaram-se algumas famílias que, tendo tido relevância na sua época, estão hoje desaparecidas de Travanca e são desconhecidas da população, de um modo geral. São disso exemplo a família Ayres, ou Aires, a família Ibérico Nogueira e a família dos Mercês, que na foto foram identificadas.



                                                            Fig.10 - António Nunes Pereira e família

Descodificando esta obra de arte (fig.7), destacado na foto, ao centro, de chapéu de coco e bigode retorcido, a sua figura distinta chamando a atenção, Teodorico da Silva Aires, nascido em Travanca em 1878, uma personagem com alguma relevância no seu tempo, teve a seu cargo o correio e o registo civil. Embora de profissão fosse sapateiro, ocupação que vinha de família por parte do pai e do avô, era comerciante, proprietário de uma sapataria. Foi também regedor em 1917. A casa de família era no Outeiro, junto à Morrota (fig.11).

Fig.11 - Antiga casa da família Aires  de Travanca de Lagos


À direita na foto, de guitarra ao colo e com ar de bon vivant, está Luís Ibérico Nogueira, um jovem travanquense, nascido em 1891, que talvez tenha tido influência no surgimento da tuna em Travanca, pois frequentava o seio estudantil de Coimbra, onde viria a licenciar-se em Medicina. Conta o seu sobrinho neto, José Ibérico Nogueira, que foi um boémio inveterado, guitarrista e cantor, poeta, letrista e escritor, com vários livros publicados. Participou em muitos eventos musicais, na academia de Coimbra, até ao final dos anos 20. Era um apaixonado pela música. Após concluir o curso de Medicina e casar, rumou a Valença do Minho, região de origem de sua mãe, Dona Dolores Portas.



O jovem robusto que se encontra de pé em 1º lugar, do lado oposto da foto, é o seu irmão António Ibérico Nogueira, nascido em 1883, e que na altura frequentava a Escola Militar em Lisboa. Segundo conta o seu neto, José Ibérico Nogueira, ele foi capitão de Cavalaria, tendo comandado o regimento de Cavalaria em Nelas até 1919, ocasião em que foi preso e deportado por ter aderido à chamada Revolta do Norte, tendo nessa altura proclamado a monarquia em Santar, na varanda de sua casa, com o seu filho ao colo, embrulhado numa bandeira azul e branca, a bandeira monárquica. Era, portanto, um homem de convicções fortes que lutou pelos seus ideais. Contudo, após ser amnistiado, fez a sua vida em Santar, terra onde casou, não tendo voltado a Travanca.



Fig.12 - Antiga casa da família Ibérico Nogueira de Travanca de Lagos



A história do nome desta família é bastante curiosa. Viviam na casa da atual Junta de Freguesia (fig.12) e o pai de ambos, também capitão, Francisco Augusto da Costa Nogueira casara com uma senhora espanhola, de Vigo, Dona Dolores Portas. Por essa razão, quando estava na tropa, para o diferenciarem de outros Nogueiras, deram-lhe a alcunha de Nogueira Ibérico, mas tendo achado graça ao nome, quando teve filhos, decidiu juntar esse apelido ao de sua família, trocando somente a ordem para não perder o vínculo familiar. Nasceu, assim, a família Ibérico Nogueira em Travanca de Lagos.



Também na foto, a representar a família dos Mercês, estão os irmãos Pinto de Brito, filhos dos ricos proprietários João Pinto de Brito e Dona Maria José Ribeiro da Rocha, distinta senhora, conhecida por Dona Cónega por ser irmã do Reverendo Presbítero, Arcipreste do distrito, Manuel Joaquim Ribeiro da Rocha, que fora prior em Travanca. Viviam na quinta de família, a Quinta da Via de Lagares conhecida mais tarde por quinta das Mercês, e na sua residência em Travanca, na casa das Campas (fig.13).

Fig. 13 - Antiga casa da família Pinto de  Brito de Travanca de Lagos


Assim, à direita da foto, de fatinho branco, distingue-se Augusto Pinto de Brito, proprietário nascido em 1871, que assinava Augusto das Mercês. Era o presidente da tuna e talvez o seu sustentáculo, visto ter sido um homem bastante rico. Nos anos 20, ficaram conhecidas as festas que dava na sua Quinta das Mercês. Contudo, no inicio dos anos 30, terá vendido todas as suas propriedades e rumado à região de Viseu.



Sentado do lado oposto, também empunhando uma guitarra, identifica-se Manuel Eduardo Pinto de Brito, seu irmão, nascido na quinta da Via, em Travanca, em 1873. Dele sabe-se que casou em Gouveia, no inicio do séc. XX, e que por lá terá feito a sua vida. Aqui, na foto, já estaria casado, encontrando-se, muito provavelmente, de visita a Travanca num acontecimento festivo.



Ainda se identifica na foto, sem total certeza, o 2º jovem que se encontra de pé, à esquerda, como sendo António Baeto, morador no Outeiro, e que assumia na tuna da geração seguinte a responsabilidade do porte da caixa dos papéis de música. Lamenta-se que essa caixa não tenha chegado aos nossos dias pois seria, com certeza, muito reveladora. Por fim, ao centro da imagem, a tocar harmónio, está uma pessoa que se deduz que seja o Sr. Geadas, da família dos Fogueiras, visto que, segundo consta, durante muitos anos foi ele o único a dominar esse instrumento em Travanca.


Os restantes elementos ainda não foram identificados.Fica, assim, em aberto esta pesquisa, aguardando a qualquer momento novas descobertas, esperando o contributo de todos para levar a cabo esta tarefa, que é, reconstituir a história de Travanca.