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domingo, 2 de agosto de 2015

A Tuna Travanquense



A Tuna Travanquense 

contributos para a sua história



fig.1 - Estandarte da tuna Travanquense


A Tuna de Travanca de Lagos foi durante décadas, juntamente com o grupo cénico (este provavelmente de inicio mais tardio), um dos ex-líbris da aldeia. A sua criação, para além de desempoeirar o panorama cultural de então, veio animar, com certeza, os bailaricos e as festas da povoação. A sua presença impor-se-ia em cerimónias e acontecimentos solenes e seria presença assídua nas festas de São Pedro.



De cariz popular, à semelhança de muitas outras tunas da sua época cujos reportórios, segundo Francisco Vieira, representariam a mais genuína tradição musico-coriográfica da província, compondo-se de fandangos, verdegaios, chotiças, valsas, sobretudo de 2 passos, bailaricos, contradanças e corridinhos, e os seus principais instrumentos seriam o harmónio, a gaitinha, a guitarra e a flauta.


Fig.2 - Sociedade  Beneficente e Recreativa, nos anos 20



Se na sua génese terá sido constituída essencialmente por “músicos de ouvido”, com o tempo, tornou-se uma verdadeira escola de música, formando várias gerações, desde pais a filhos. A sua sede seria na Sociedade Beneficente e Recreativa, antiga Casa do Povo ("velha") (fig.2). Mas, com o passar dos anos a tuna foi perdendo o fulgor, por um lado, talvez devido aos sucessivos surtos migratórios que foram assolando a região, quer para África e Brasil, quer para a capital, por outro lado, também devido ao aparecimento de novas modas e agrupamentos musicais, como o rock-roll, grupos de baile e a chegada das aparelhagens, etc., que terão retirado à tuna espaço e protagonismo, até que desapareceu em meados dos anos 50 do séc. XX.

No entanto, ainda em meados dos anos 40, a tuna conheceu um novo impulso com a criação dum organismo denominado C.A.T., Centro de Alegria no Trabalho, da Casa do Povo de Travanca de Lagos, integrando também o grupo de teatro local, cuja direção era presidida pelo Dr. Álvaro dos Santos Madeira e secretariada por Ivo Teles Nunes Pereira (fig.3), período no qual se promoveram diversos espetáculos conjuntos com imenso êxito que, geralmente, se iniciavam com uma récita seguida de baile pela noite dentro.



Fig.3 - Casa do Povo (nova) -1944

A título de curiosidade, já no final dos anos 20, o período florescente da Tuna, em todos os aniversários que Luís Martins Borges (fig.4) celebrava em Travanca, por altura de 15 de Setembro, o grupo musical tinha por tradição tocar o seu reportório à porta de sua casa (fig.5) e o distinto senhor, um dos patronos da tuna nessa época e um grande benfeitor de Travanca, mandava-os subir e oferecia bolos e vinho.

Fig.4 - Luis Martins Borges
  
Fig.5 - Antiga casa de Luis Martins  Borges em Travanca

Após um longo período de esquecimento, só nos anos 90 a tuna voltaria a ser referida quando foi descoberto, por acaso, na casa do povo, o seu estandarte (fig.1) e uma foto antiga de conjunto, por essa altura, já era desconhecida da maioria das novas gerações (fig.6). Essa foto foi aqui publicada, em 2008, sob o título “crónicas da minha terra cap. I”, tendo-se identificado todos os elementos que a compunham e datado como sendo de 1929/30. Essa preciosa tarefa, que aliás marca o início deste blogue como o despertar para a história de Travanca, foi realizada com a ajuda dos inestimáveis irmãos Nunes Pereira, o Sr. Ivo, que com a sua prodigiosa memória muitas vezes desbloqueou as charadas históricas que foram aparecendo, e o Sr. Pereira, um homem culto e de grande lucidez, que, como foi dito então, faziam parte da tuna quando crianças, infelizmente falecidos no ano transato, contavam já mais de 95 anos.


Fig.6 - Tuna Travanquense 1929/30

Por essa altura, o Sr. Ivo revelou que houve uma 1ª fase da tuna, anos antes, no início do séc. XX, onde o pai participava e era presidente o mítico Mercês. Na ocasião, era impensável recuar na história da tuna até ao inicio do século mas, recentemente, numa recolha de fotografias antigas pude apreciar uma foto surpreendente, que poderá estar relacionada com essa 1ª tuna. Uma foto de época, belíssima, reveladora dos 1ºs passos do séc. XX em Travanca, e que aqui se edita pela 1ª vez (fig.7). Pertencia ao espólio de Teodorico da Silva Aires, também retratado na foto, estando presentemente na posse do atual presidente da junta, o Sr. António Manuel Soares, que gentilmente ma permitiu reproduzir.

Fig.7- Tuna Travanquense 1909/14


A árdua tarefa que tem sido investigar esta foto agora que, infelizmente, não podemos contar com a ajuda dos saudosos irmãos Nunes Pereira, conta com mais de um ano de pesquisa, tendo-se já identificado aproximadamente 50% dos retratados e concluído que terá sido tirada por volta de 1909/14.



No decurso da investigação foram-se conhecendo mais tunos, desta fase anterior do agrupamento musical, que não constam desta foto como, por ex., o caso de Manuel da Silva Neto (fig.9), o conhecido proprietário e negociante de Travanca do inicio do séc. XX, que tinha uma loja comercial chamada “A Nova Aurora”, com residência no 1º andar (fig. 8), existido ainda a flauta com que tocava, atualmente na posse da sua sobrinha, Dona Conceição Brito, ou ainda, o caso de António Nunes Pereira, conhecido por António Carteiro, pai do Sr. Ivo, que não parece constar na foto, e que era o responsável pela distribuição do correio em Travanca, chegando a ter os 4 filhos na tuna da geração seguinte (fig.10).



Fig.8 - Loja Comercial e residência da família Silva Neto
Fig.9 - Manuel da Silva Neto


Por outro lado, para além de reportar a tuna, esta foto permite-nos recuar no tempo, até ao final do séc. XIX, podendo contribuir assim, também, para o estudo das famílias de Travanca. Nesse sentido, identificaram-se algumas famílias que, tendo tido relevância na sua época, estão hoje desaparecidas de Travanca e são desconhecidas da população, de um modo geral. São disso exemplo a família Ayres, ou Aires, a família Ibérico Nogueira e a família dos Mercês, que na foto foram identificadas.



                                                            Fig.10 - António Nunes Pereira e família

Descodificando esta obra de arte (fig.7), destacado na foto, ao centro, de chapéu de coco e bigode retorcido, a sua figura distinta chamando a atenção, Teodorico da Silva Aires, nascido em Travanca em 1878, uma personagem com alguma relevância no seu tempo, teve a seu cargo o correio e o registo civil. Embora de profissão fosse sapateiro, ocupação que vinha de família por parte do pai e do avô, era comerciante, proprietário de uma sapataria. Foi também regedor em 1917. A casa de família era no Outeiro, junto à Morrota (fig.11).

Fig.11 - Antiga casa da família Aires  de Travanca de Lagos


À direita na foto, de guitarra ao colo e com ar de bon vivant, está Luís Ibérico Nogueira, um jovem travanquense, nascido em 1891, que talvez tenha tido influência no surgimento da tuna em Travanca, pois frequentava o seio estudantil de Coimbra, onde viria a licenciar-se em Medicina. Conta o seu sobrinho neto, José Ibérico Nogueira, que foi um boémio inveterado, guitarrista e cantor, poeta, letrista e escritor, com vários livros publicados. Participou em muitos eventos musicais, na academia de Coimbra, até ao final dos anos 20. Era um apaixonado pela música. Após concluir o curso de Medicina e casar, rumou a Valença do Minho, região de origem de sua mãe, Dona Dolores Portas.



O jovem robusto que se encontra de pé em 1º lugar, do lado oposto da foto, é o seu irmão António Ibérico Nogueira, nascido em 1883, e que na altura frequentava a Escola Militar em Lisboa. Segundo conta o seu neto, José Ibérico Nogueira, ele foi capitão de Cavalaria, tendo comandado o regimento de Cavalaria em Nelas até 1919, ocasião em que foi preso e deportado por ter aderido à chamada Revolta do Norte, tendo nessa altura proclamado a monarquia em Santar, na varanda de sua casa, com o seu filho ao colo, embrulhado numa bandeira azul e branca, a bandeira monárquica. Era, portanto, um homem de convicções fortes que lutou pelos seus ideais. Contudo, após ser amnistiado, fez a sua vida em Santar, terra onde casou, não tendo voltado a Travanca.



Fig.12 - Antiga casa da família Ibérico Nogueira de Travanca de Lagos



A história do nome desta família é bastante curiosa. Viviam na casa da atual Junta de Freguesia (fig.12) e o pai de ambos, também capitão, Francisco Augusto da Costa Nogueira casara com uma senhora espanhola, de Vigo, Dona Dolores Portas. Por essa razão, quando estava na tropa, para o diferenciarem de outros Nogueiras, deram-lhe a alcunha de Nogueira Ibérico, mas tendo achado graça ao nome, quando teve filhos, decidiu juntar esse apelido ao de sua família, trocando somente a ordem para não perder o vínculo familiar. Nasceu, assim, a família Ibérico Nogueira em Travanca de Lagos.



Também na foto, a representar a família dos Mercês, estão os irmãos Pinto de Brito, filhos dos ricos proprietários João Pinto de Brito e Dona Maria José Ribeiro da Rocha, distinta senhora, conhecida por Dona Cónega por ser irmã do Reverendo Presbítero, Arcipreste do distrito, Manuel Joaquim Ribeiro da Rocha, que fora prior em Travanca. Viviam na quinta de família, a Quinta da Via de Lagares conhecida mais tarde por quinta das Mercês, e na sua residência em Travanca, na casa das Campas (fig.13).

Fig. 13 - Antiga casa da família Pinto de  Brito de Travanca de Lagos


Assim, à direita da foto, de fatinho branco, distingue-se Augusto Pinto de Brito, proprietário nascido em 1871, que assinava Augusto das Mercês. Era o presidente da tuna e talvez o seu sustentáculo, visto ter sido um homem bastante rico. Nos anos 20, ficaram conhecidas as festas que dava na sua Quinta das Mercês. Contudo, no inicio dos anos 30, terá vendido todas as suas propriedades e rumado à região de Viseu.



Sentado do lado oposto, também empunhando uma guitarra, identifica-se Manuel Eduardo Pinto de Brito, seu irmão, nascido na quinta da Via, em Travanca, em 1873. Dele sabe-se que casou em Gouveia, no inicio do séc. XX, e que por lá terá feito a sua vida. Aqui, na foto, já estaria casado, encontrando-se, muito provavelmente, de visita a Travanca num acontecimento festivo.



Ainda se identifica na foto, sem total certeza, o 2º jovem que se encontra de pé, à esquerda, como sendo António Baeto, morador no Outeiro, e que assumia na tuna da geração seguinte a responsabilidade do porte da caixa dos papéis de música. Lamenta-se que essa caixa não tenha chegado aos nossos dias pois seria, com certeza, muito reveladora. Por fim, ao centro da imagem, a tocar harmónio, está uma pessoa que se deduz que seja o Sr. Geadas, da família dos Fogueiras, visto que, segundo consta, durante muitos anos foi ele o único a dominar esse instrumento em Travanca.


Os restantes elementos ainda não foram identificados.Fica, assim, em aberto esta pesquisa, aguardando a qualquer momento novas descobertas, esperando o contributo de todos para levar a cabo esta tarefa, que é, reconstituir a história de Travanca.

domingo, 29 de junho de 2014

Quintas e Lugares de Travanca de Lagos

Quinta do Veríssimo


A antiga Quinta do Veríssimo, situada numa encosta na vertente Este de Travanca, surge num extenso vale, na confluência das Chãs, do Vale de Rocim e da quinta dos Ninhos, todas propriedades da freguesia de Travanca. É atualmente uma quinta ao abandono, com todo o seu património edificado em sério risco de desaparecer, facto que me levou a dar início a um levantamento das quintas e lugares de Travanca para que, dentro do que me é possível, fique um registo fotográfico, com um breve resumo da sua história.

Fig. 1
Esta Quinta possui uma extraordinária exposição solar, que lhe confere uma particular beleza. O ar decadente do seu casario, já em ruínas (fig. 1), onde sobressaem as pedras de granito, quer das suas paredes, quer das grandes lajes em seu redor, já polidas pelo tempo, reforçam esse encanto. Em contraste, possui um manto verde à sua volta crescido pela abundância da água, que, ao correr solta, quebra o silêncio do lugar, até se estancar numa pequena represa, onde se deposita por algum tempo (fig.2), antes de atingir irremediavelmente o rio Cobral, umas centenas de metros a jusante.

Fig. 2
Não se conhece o ano da sua fundação, no entanto, este lugar vem referenciado nos registos paroquiais, no princípio do séc. XX, como Quinta do Veríssimo. Em 1906 nasce lá um menino de nome Agostinho, filho dos agricultores, Manuel Mendes Pereira e Maria de Jesus, sendo seus avós paternos Veríssimo José Pereira e Maria Dias. Talvez este seu avô Veríssimo tenha dado o nome à quinta em meados do séc. XIX. No entanto, a quinta parece ser mais antiga, bem ilustrada pelo granito erodido. Mais recentemente, também lá nasceu e viveu, até se casar, a D. Maria, esposa do Sr. Osvaldo Gonçalves, ambos comerciantes nas Campas durante mais de três décadas. Nos anos 90 ainda era habitada, numa das casas do conjunto (fig.3). 

Fig. 3
Outrora uma quinta agrícola essencialmente cerealífera mas que, ao jeito das demais, produziam de tudo. Era servida por vários caminhos, quer pelas Vendas de Gavinhos, quer pelo Zambujeiro, quer ainda, pela Adarnela, podendo escoar os seus produtos, também, pela ponte da Pantera, que a ligava a Lagares da Beira. Esta, aliás, é uma ponte muito antiga, ainda não classificada, arquitetonicamente dada por muitos como romana, parece ser, no entanto, uma ponte medieval de arquitetura românica. O seu recente nome advém dum crime que lá ocorreu em 1937, o crime da Pantera (ver post anterior).

Fig. 4
A ponte cruza o leito do rio Cobral, numa zona bastante pedregosa, ligando um extenso vale, outrora bastante produtivo, com as quintas sobreditas, pela parte de Travanca e, Chã de Abrantes, quinta da Carva (pertencia a Travanca, segundo os registos paroquiais), entre outras, pela parte de Lagares. Servia uma zona de Moinhos e moleiros desde épocas muito recuadas (fig.6), nomeadamente, os moinhos da Carva, os da Adarnela, podendo ter sido essa uma das razões da sua construção.

Fig. 5
Fig. 6









Em cantaria granítica, a ponte é composta por um só arco de volta perfeita, assente solidamente nas margens (fig.4). O tabuleiro é horizontal sobre o arco e rampante no topo norte, o de lagares. Lateralmente é protegido por guardas, também de granito. O pavimento encontra-se danificado (fig.7).

Fig. 7
Fig. 8









No topo sul, culmina com uma casa de granito, em ruínas que, segundo o Sr. António Cabaço, era conhecida como a casa da quinta do Perneta (fig.8). Em ambas as margens o terreno é fértil e verdejante (fig.9), convidativo ao passeio recreativo e à fotografia. Fica aqui o mote…

Fig. 9


sábado, 21 de dezembro de 2013

Artigo publicado na Folha do Centro em 19 dezembro de 2013

Francisco Antunes
Francisco Antunes
Só se ama aquilo que se conhece!
O nosso país é uma enorme manta de retalhos, modesta e humilde, sempre viva e surpreendente. Se dela levantarmos o “farrapito” que nos coube para viver – a Beira Serra -, este não destoa do conjunto, e é no Outono que atinge o apogeu da sua formosura: a luz, a transparência do ar, o colorido das florestas, o cristalino das águas que correm…e com um pouco mais de esforço descobriram as suas gentes e a admirável História da região.

Desçam lentamente qualquer das vias que a Serra ou da estrada Real vão ao encontro do Alva! De Vila Cova e Sandomil, passem por S. Gião, Penalva, Caldas, Sto. António, S. Sebastião, e Avô e as suas admiráveis Varandas; uma pausa em Vila Cova do Alva e sosseguem em Coja…deliciem-se com o constante movimento dos cenários deste fantástico palco.
A cascata do Alva é um permanente louvor à Natureza e um hino ao engenho do Homem. Tudo…harmonia do Belo!

Se da folhinha da História levantarmos mais um “farrapinho” do último quartel do Séc. XV, aparece-nos uma região de múltiplas carências, sem vias de comunicação, forte isolamento, insegurança nos caminhos, ausência quase total de pontes. Densa floresta cobria o território. Assaltos frequentes de ladrões, lobos e ursos obrigavam os raros viajantes a deslocarem-se sempre em grupo, viajantes constituídos por monges, frades, cobradores de impostos, alguns freires das ordens militares, todos armados pois transportavam rendas e esmolas, para conventos e mosteiros.

Contudo, na última década do seculo deram-se na Península Ibérica notáveis acontecimentos que muito abalaram as populações na sua forma de viver. O descobrimento do caminho marítimo para India em 1498, a descoberta do brasil em 1500, a expulsão dos Judeus de Espanha em 1492 e a descoberta da América em 1493. Nesta época eramos cerca de um milhão de habitantes com 98% de analfabetos…de Espanha recebemos cerca de duzentos mil “expulsos” com 40% de analfabetos…ficaram a construir quase 20% da população. Nota curiosa: em 1975 vieram de Africa 300.000 portugueses, tínhamos dez milhões…acrescentaram a população em 3%!!!

Embora D.Manuel numa lamentável medida tivesse expulsado alguns milhares de recém-chegados no interior do reino, tal não se verificou e foi esta “gente de nação” que, felizmente, deu notável impulso ao desenvolvimento da Beira Serra e a todo o interior do País.

A construção naval teve desenvolvimento explosivo com as carreiras da India e do Brasil, centenas de naus, caravelas e mais tarde, galões, foram construídas; calafates, carpinteiros, cordeiros, tecelões, ferreiros e outras profissões atulhavam os estaleiros de Lisboa. Do interior houve um fluxo migratório para o litoral que em parte foi compensado com as gentes chagadas de Espanha e a nossa Beira-Serra não faltam criadores de gado, curtidores, samarreiros, sapateiros, alfaiates, comerciantes de panos, de tripa, de especiarias, azeite, vinho e cera; almocreves e carreteiros que lhes davam o controlo dos transportes.

No território hoje está ocupado pelo nosso concelho existem interessantes marcas desse tempo em toda a ribeira d’Alva, Vila pouca, Lourosa, Bobadela, Travanca e Ervedal.
Travanca, na minha modesta opinião, detêm o mais bem conservado núcleo histórico dessa época que, embora modesto, se encontra bastante desprezado e até, lamentavelmente, mutilado.

É povoação muito antiga; já é referida em documentos de 969 e a presença de sepulturas e lagaretas bem elaboradas não deixam dúvidas que ali, antes daquela data, já se produzia vinho e azeite. A sua igreja dedicada a S. Pedro, de três naves, está datada no Séc. XI, foi modificada através dos séculos e enriquecida com belos azulejos hispano-árabes e notáveis altares barroso que denota fé, riqueza e nível social dos seus habitantes. Curiosamente as três igrejas do conselho com três naves são todas dedicadas a S. Pedro: Lourosa, Seixo e Travanca. Três templos dos mais antigos da região.

A Fonte Arcada onde desde o começo do tempo…se praticam magias, curas milagrosas, se “ergue a espinhela ou se corta o cobrão”…mas o mais interessante é que “Arcada” tem origem numa palavra grega que significa- mistério, remédio!!! Quem pôs o nome aquela misteriosa fonte?
Travanca é Histórica, Enigmática… Misteriosa. Sim, é modesta mas é merecedora de um estudo adequado e de uma proteção responsável.
É natal!
Paz, Esperança, Saúde para todos vós

Artigo elaborado por Dr. Francisco Antunes 


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Travanca antiga

fig. 1



Umas curiosas pedras sulcadas, tipo goteira, que se destacam nas fachadas de algumas casas em Travanca, chamam a atenção.  Parecem ser uns adereços bastante antigos, de aspeto medieval. Identifiquei quatro exemplares, em vários locais de Travanca, todas muito parecidas, quer no tamanho, quer na forma, denotando poderem ser da mesma época. São estruturas usadas para o escoamento de águas, mas no caso concreto, descobri que servem para canalizar para o exterior, longe da parede, as escorrências que provêm das pias da cozinha. Fazem, portanto, parte de um conjunto que se compõe de pia em pedra e sistema de esgoto. Dos quatro conjuntos encontrados, um já não tem pia, que segundo o proprietário, foi removida  nos anos 70 (fig. 2).

fig. 2 - goteira sem pia

Outro dos exemplares está completo (fig. 3,4 e 5), no entanto a casa encontra-se abandonada, infelizmente muito degradada, tendo uma data inscrita de 1694/9 (fig. 6). 

fig.3 -  goteira vista de frente

fig.4 - goteira vista de perfil

fig. 5 -  pia


fig. 6 - inscrição de data

Em relação aos  outros 2 conjuntos, um apresenta a pia, ainda que atualmente não sirva esse fim (fig. 8 e 9), a outra ainda não tive a oportunidade de entrar dentro da casa, para confirmar se forma um conjunto completo (fig. 10).  

fig. 8 - goteira com pia


fig. 9 -  pormenor da  pia


fig. 10