segunda-feira, 14 de abril de 2025

Lanzner - vida e obra

Lanzner, 1936-2013

 

Lanzner, nome artístico de António Luís da Silva Reis Santos, faria 89 anos em 26 de março do presente ano. Esta é uma efeméride que recordo com saudade. Foi um artista plástico de Coimbra.

Expôs individualmente pela 1ª vez na Galeria, O Primeiro de Janeiro, em Coimbra, corria o ano de 1959 e pela última vez em 1989 na Galeria Estúdio Arte, em Coimbra também. Ainda em 1993 realizou uma exposição didática de gravura com o Monsenhor Nunes Pereira. Foram mais de 30 anos dedicados às artes plásticas, do desenho à gravura e à pintura, da escultura à medalhística. Pelo meio realizou muitas exposições, dedicou-se ao ensino como professor de desenho na Escola Brotero e no Circulo de Artes Plásticas, esteve em Paris como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e criou uma vasta obra artística, permanecendo ainda um acervo considerável na família.

Lanzner foi um artista completo, que abarcou todos os domínios artísticos e que se manifestava quer no processo criativo como nos meios de suporte à criação. Era detentor de uma cultura vasta e diversificada que lhe permitia grandes conhecimentos e uma grande liberdade nos meios e técnicas de produção artística. Foi ele que fez o prelo para impressão das gravuras, o forno para aa fundição das medalhas e outras peças, os cavaletes, as malas de transporte de quadros e materiais, por vezes as tintas e os pincéis, as molduras e os catálogos das exposições. Produzia a arte e os meios artísticos, era todo o processo que lhe permitia tirar todo o prazer da arte.

Conviveu com grandes criadores, escultores, pintores e artistas do séc. XX, fruto da relação privilegiada que o seu pai, Luís Reis Santos, mantinha com o meio artístico português, tendo sido ele um reputado historiador e crítico de arte dos meados do séc. XX. Dórdio Gomes, Martinho da Fonseca, Watanuki, Cottinelli Telmo, Leopoldo de Almeida, Barata-Feyo ou o mestre António Duarte são alguns exemplos, assim como Carlos Queiroz, seu padrinho de batismo. No meio artístico de Coimbra conviveu com Hébil, António Pimentel, Pinho Diniz, Mário Silva, Pedro Olaio Filho, Monsenhor Nunes Pereira, os irmãos Berardo, entre outros e numa fase mais tardia com o pintor Vítor Matias que tinha um atelier/galeria no Girassolum, a Galeria Estúdio Arte, onde ele expunha habitualmente algumas obras e que era palco de tertúlias diárias, nos corridos anos 90, junto com o seu amigo Hébil, Mons. Nunes Pereira, entre outros, como Vasco Berardo ou Zé Penicheiro.

Nos últimos 20 anos da sua vida, envoltos em progressivos problemas de saúde e, de certo modo, desiludido com a pintura e o meio artístico coimbrão, dedicou-se à escrita, especialmente à poesia, mas também à prosa e aos ensaios filosóficos, deixando vários livros prontos a publicar. Nessa derradeira fase o músico e poeta Eduardo Aroso foi o seu grande amigo e companheiro de escrita e tertúlias.

Pessoalmente, conviver com o Homem e o artista foi uma grande inspiração e talvez o responsável pelo meu atrevimento no domínio artístico. Foi um Mestre.

Neste espaço pretende -se divulgar a sua obra, embora de uma forma sumária e temática, com relevo para o Desenho, para a pintura e gravura, escultura e medalhística.


terça-feira, 1 de abril de 2025

Travanca à mesa

 

Fig. 1 –Natureza morta, òleo sobre platex, Lanzner, anos 60


A Travanca de Lagos, como à Beira Alta de uma forma geral, são-lhe reconhecidas as qualidades de hospitalidade e de boa mesa, factos que tenho confirmado ao longo dos anos. Ora, esse último aspeto será o tema deste pequeno tópico a que voltarei variadas vezes, tantas quantas as vezes que eu perceber que a divulgação do estabelecimento, da iguaria ou do cozinheiro seja relevante para quem nos visita. Poder percorrer a história e o património da nossa região e complementar o passeio com um rico repasto regional é um complemento que se torna essencial, afinal, a gastronomia faz parte da nossa cultura e é um selo da nossa região.

As gentes da Beira são simpáticas, gostam de receber bem e tradicionalmente têm uma cozinha rica e saborosa. Os produtos regionais são amplamente conhecidos, como o queijo de ovelha Bordaleira, conhecido como Queijo da Serra da Estrela, o requeijão desse mesmo leite, os enchidos de porco, como a morcela, a chouriça e a farinheira ou os míscaros, estes últimos mais raros, talvez por razões de segurança alimentar, são alguns exemplos de excelência. Os pratos de cabrito assado à moda da Beira, os torresmos, o arroz de cabidela, o entrecosto de vinha de alhos são algumas receitas conhecidas. O pão-de -ló que acompanha o queijo, o arroz doce e a tigelada são típicos da região. A broa de milho e a bola de sardinha feitas em forno de granito dão -lhe um sabor especial. O vinho é afamado estando inserido na região do Dão. As castas touriga Nacional para as uvas tintas e o encruzado para o vinho branco são as mais conhecidas.

Infelizmente não há muitos restaurantes a considerar, encontrando-se apenas 1 em travanca que operara por marcação, conhecido pela Tila, de resto, afamado pelas gentes que nos visitam, tendo na sua qualidade /preço e na generosa quantidade a sua mais-valia.

Travanca desde que há registos conhecidos, nomeadamente nas inquirições Afonsinas e por altura do Terramoto de 1755, que é referido travanca como sendo uma terra de poucos recursos, um solo pobre, pouco gado, onde a pouca caça se limitava aos coelhos do mato, que ainda assim eram pouco aproveitados. Como hipótese para esse visível exagero talvez se possa pensar que este relato pudesse servir aos proprietários de então, que dessa forma podiam evitar a cobrança de mais impostos ou tarifas, desviando assim a atenção sobre a aldeia, podendo ser vista como uma medida protecionista. Verdade ou não, sempre se caçou nas nossas terras e presentemente também se juntam ao coelho e aos tordos, o javali. A gastronomia de caça será portanto considerada como tendo tradição nas nossas terras e dado algum destaque.

É um desígnio desta rubrica encontrar quer os restaurantes que respondam ao bom paladar e que estarão ao alcance de todos de uma forma geral, e aos cozinheiros amigos que têm o dom e eu o prazer de ir conhecendo, e que se prestem a mostrar as suas qualidades gastronómicas. Será portanto um espaço de divulgação da nossa cultura gastronómica e um incentivo à descoberta da nossa região, a par das histórias, da cultura e do património.


sábado, 8 de março de 2025

À minha Mãe

 

Fig. 1 – Flora, a minha mãe com 20 anos


Neste espaço que dedico às memórias do passado de travanca, quero partilhar uma muito especial e pessoal, a história de vida da minha mãe. Não porque tenha tido relevância no panorama de Travanca de Lagos mas porque teve toda a relevância e importância na minha vida.

Foram 83 anos de vida, para nós partiu cedo deixando um grande vazio nas nossas vidas, mas com a convicção de ter partido de coração cheio. Voltou para a Terra que a viu nascer, num lindo dia de sol, 4 de março de 2025, junto com a família, amigos e conhecidos e acompanhada pela secular Irmandade de São Pedro. A todos agradeço por essa última homenagem!

Como sabem, a minha mãe chamava-se Flora (fig.1), um nome diferente mas que sempre adorei! A inspiração para o nome, segundo sei, foi de uma amiga brasileira da minha avó Maria Cerca, chamada Flora (fig.2), que estaria temporariamente na casa de Luís Martins Borges, onde a minha avó trabalhava. Teve 3 irmãos e um pai que se ausentou quando ela tinha apenas 2 anos.


Fig. 2-  Flora
         Fig. 3 -  Entroncamento, fins dos anos 40 ( a minha mae, 2ª da dta.)


A nossa família vivia um período muito difícil de privação e pobreza, num país pobre e num contexto de 2ª guerra mundial e pós guerra. Talvez por isso saiu ainda muito nova de travanca, com apenas 9 anos, foi servir para a família do Dr. Álvaro Madeira em Coimbra- hoje seria considerado trabalho infantil - pouco tempo depois de concluir a escola primária. Teve portanto uma infância pouco feliz e uma vida difícil nos primeiros anos.

Fig. 4 – Aniversário dos 59 anos de casamento, 29/8/24

Mas cedo encontrou um novo rumo, quando conheceu o grande amor da sua vida, um homem que a amou desde o primeiro dia e que levaria a uma vida comum de mais de 60 anos. Foram um binómio até ao último dos seus dias, um amor incondicional. Quem os conheceu sabe do que falo, os meus pais foram feitos um para o outro!


 

Fig.5 – Dia do seu casamento, 29/8/65                                                  Fig.6 –Fim dos  anos 60

A sua vida não aconteceu sem sacrifícios, trabalhos menos qualificados, passando por um período de emigração na Alemanha, onde trabalhou, entre outros, numa fábrica de produção de peças automóveis, em schaffausen, perto de Singen, cidade do sul de Alemanha, onde residíamos. Não deixaram de ser tempos felizes também, com muitas amizades novas num país de novas oportunidades.

Fig. 7 – Alemanha , Singen 1977

De regresso a Portugal, estiveram para se fixar em Travanca, mas acabaram por escolher Coimbra, a sua terra de coração, corria o ano de 1979. Aí construíram uma moradia, na Casa Branca, bairro da Monac, como era designado então, chão de antepassados meus. Aí viveu cerca de 45 anos até ao seu último dia.



 Fig. 8 – Colegas do Jardim                                      Fig. 9 – Um dia de trabalho no João de Deus, 1999

Em 1980 foi inaugurar o 2º jardim-escola João de Deus, na Solum, primeiro como empregada mais básica e finalmente como chefe de economato, cargo que desempenhou até à sua reforma em 2006. Criou muitas amizades entre colegas e professores, pais e educandos. Eu costumava dizer que a minha mãe tinha muitos netos em Coimbra para além dos seus, pois mantinham-lhe o afeto muitos anos depois de saírem da primária, com visitas constantes. Quando fez 25 anos de serviço foi agraciada e homenageada na sede em Lisboa pelo presidente da direção da Associação de jardins-escolas João de Deus, o Dr. António de Deus Ramos Ponces de Carvalho, que a deixou muito orgulhosa. Mas acima de tudo trabalhou para os filhos e netos, 4 que ajudou a criar, com muita dedicação e um amor incondicional. Todos temos memórias maravilhosas.

Fig. 9 – Homenagem em 2005


E como não podia deixar de ser, filha de cozinheira sabe cozinhar! Cozinhava maravilhosamente, eram conhecidos por toda a família e amigos os seus pratos de cozinha tradicional Portuguesa, como o rancho, a feijoada, o cozido ou o cabrito assado, que não tinham igual. Dou 2 exemplos: feijoada com arroz de bacalhau e esparregado de nabiças, parece estranho mas era sublime ou a típica carne estufada com cenoura e nabo, simplesmente divinal! Já os netos e os seus amigos não esquecem as almondegas e os morangos com chantilly!

 
 

Fig.10 a 13 – últimos 2 anos


Nos últimos anos, fruto de um processo demencial, a sua saúde foi-se deteriorando progressivamente, embora que, até ao seu último dia tenha mantido sempre a boa disposição junto da família e principalmente do meu pai, agora também o seu cuidador extremoso, que nunca lhe faltou com amor nem coisa alguma. Apagou-se a luz mas ficam as memórias de todos nós!


Fig. 14 – Último aniversário 12/11/2024


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Figuras do meu tempo

 



Fig. 1 – Retrato com cerca de 19 anos




Maria Cerca

Chamava-se Maria dos Anjos Costa, e já nos últimos anos de vida perdeu o Costa ficando apenas Maria dos Anjos, era a minha avó Maria, conhecida por todos como Maria Cerca. O apelido vem já de família, já a mãe, minha bisavó, era a Cerca. Os Cercas têm origem na Quinta do Pedrógão, talvez tenha começado por uns tios, Maria da Nazareth Costa e José de Abrantes por terem sido moradores e trabalhadores na Quinta da Cerca, em meados do séc. XIX.

Fig.2 – À soleira nas escadas de sua casa, anos 80


Teve uma vida difícil, mãe de 4 filhos, um, o meu tio Vasquito, faleceu com apenas 14 anos, facto que lhe deixou marcas para sempre. Embora casada até ao fim dos seus dias, ficou mãe solteira e desamparada muito cedo, com apenas 25 anos. O meu avô saiu de casa e acabou por ter uma vida paralela, com filhos, perto de Serpins. A família não a ajudou, foram para o Brasil e quando parte regressou continuou sozinha na labuta pela sobrevivência. Fez vários trabalhos para conseguir sustentar os filhos, chegou a vender pão na feira, mas foi como cozinheira que ficou conhecida. As filhas foram servir como empregadas de famílias abastadas ainda crianças. Eram tempos difíceis…

Fig.3 – Uma Boda de casamento nos anos 80


Como Cozinheira que foi, afamada nesse tempo, fez as bodas de casamento de grande parte dos residentes de travanca da sua geração, nomeadamente nos anos 60, 70 e 80, e participava noutras festas consoante houvesse necessidade e para isso fosse requisitada. A fig. 4 mostra um dia de festa e a minha avó é a terceira pessoa que se encontra à direita em pé, com os braços apoiados sobre os ombros do Sr. Nunes Moleiro. Foi a cozinheira da boda de casamento da irmã da D. Conceição Brito, Mª Isabel Mendes Costa e Silva Mesquita, sobrinhas do Proprietário José da Silva Neto. Na foto constam, em grande parte, os colaboradores /trabalhadores da quinta do Sr. Silva Neto, que comiam numa ala à parte, como era hábito na época. Muitos destes travanquenses já faleceram, alguns não se identificaram, mas é um belo retrato de época!

Fig. 4- Ala dos empregados da quinta de José da Silva Neto na boda de casamento da sobrinha, D. Isabel Mesquita, 1967


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Figuras do meu tempo

 Mário Sapateiro


O Sr. Mário Santos, conhecido como Mário Sapateiro, por ter sido essa a sua profissão, ele que foi o último a exercer essa arte com sede em travanca, era uma figura afável e muito simpática. Prestava o serviço onde tinha a sua oficina, no r/ch da sua residência. E era por ali que se encontrava normalmente, ou a trabalhar na arte, ou a conversar com os amigos que por ali passavam, como eu por exemplo, ou o seu vizinho Horácio Rato.
Fig. 2- Cabana de apoio

Também trabalhava na lavoura como grande parte dos travanquenses da sua geração e tinha especial orgulho na sua cabana de pedra situada junto à Mata do Búzio, que lhe servia de apoio para guardar as alfaias. Era um enorme megálito de granito transformado em abrigo, que ele teve o gosto de me mostrar. Tinha também essa característica, servir de cicerone pelas maravilhas escondidas de travanca. Foi ele que me mostrou em primeira mão os megálitos com interesse histórico no Búzio e até onde se situavam as Casinhas do Diabo que, envoltas em mato cerrado, eram difíceis de encontrar.

Fig.3 –à procura das Casinhas do Diabo
Fig. 4- A contar a pré- História do Búzio

 

As Casinhas do Diabo que faziam parte do imaginário das crianças de Travanca da minha geração, ao estilo dos contos populares infantis medievais, que amedrontavam e simultaneamente enalteciam a coragem de quem ousasse enfrentar. Foi o que aconteceu certa vez, com o meu tio António Antunes, numas férias de verão que passámos juntos com a restante família. Entra pela caverna, comigo e outros a ver amedrontados, ouvem-se gritos e sinais de luta lá dentro e finalmente sai com a camisa meio rasgada ou desgoelado, depois de ter enfrentado a fera, dita o Diabo em pessoa! Para nós, se não acreditássemos passava-mos a acreditar, tal fora o teatro daquele ato. Provavelmente faziam isso para perpetuar o mito para as novas gerações. Tudo isto na Mata do Búzio, mata que o incendio de 2017 infelizmente fez desaparecer.

 Fig.5 – As Casinhas do Diabo, aspeto exterior

Fig.6- Pormenor do interior 

Era majestosa, com os enormes pinheiros mansos de copa bem alta, por entre as altas lajes de granito que serviam de miradouros para a aldeia e para a serra, tanto do caramulo como da Estrela.

Fig.7- Um miradouro na mata do Búzio


Fig.8- Mata do Búzio, pormenor

O Sr. Mário Sapateiro era também conhecido em travanca, por mera brincadeira, como “O Primo”, pois via sempre uma relação de parentesco entre todos, ou quase. Eu que sou um apaixonado por genealogia achava graça e cheguei a procurar o caminho do nosso parentesco. Ele só não sabia os nomes dos antepassados mas tinha uma espécie de instinto genealógico!



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Figuras do meu tempo

 

HORÁCIO RATO

Fig. 1 - No Café do Sérgio


O Sr. Horácio era um cartão-de-visita de travanca. Sempre pronto para mostrar os mistérios escondidos do vasto património rupestre da nossa afamada terra. Foi o Sr. Horácio, com toda a sua simpatia e amabilidade que me foi mostrando as primeiras sepulturas antropomórficas, os primeiros lagares rupestres e outros locais interessantes, porque sabia que me interessava pela história de travanca. Nessa altura, quando me encontrava no Povo perguntava-me – Oh! Menino já conhece o sítio X? - E de seguida prontificava-se a mostrar-me a novidade por entre terrenos de cultivo e mato…


Fig. 2 - À procura da sepultura perdida
Fig. 3 - Nos Covais

Ele e o seu irmão, Manel Rato, eram distribuidores de pão em travanca, que o faziam, ele de mota e o Manel Rato de bicicleta, com um cesto bipartido nas traseiras dos velocípedes, conhecido por cesto de pernas. Embora houvessem mais padeiros, como por exemplo o Sr. António Brás. Paravam de porta em porta, pendurando os sacos com o saboroso pão feito em forno de lenha. Lembro me bem do som característico da buzina a avisar a sua chegada! Esse som característico que se mantem na minha memória e que só rivalizava com o toque do sino da igreja! 

O Sr. Horácio não só distribuía o pão como foi padeiro toda a sua vida, uma grande parte do tempo na padaria de travanca, propriedade, na altura, do Sr. Luís Tânica. E que saudades da nossa padaria e de comer o pão quente à meia-noite! Especialmente nas férias de setembro, quando em grupo tocávamos no vidro da porta da padaria, já com um pacote de manteiga na mão e amavelmente nos atendiam. De dentro vinha um bafo quente mas saboroso, muito característico. Nessa época não me recordo do Sr. Horácio por lá mas Lembro-me de ver muitas vezes o Sr. Zé Marques vestido de branco e com farinha da cabeça aos pés, a trabalhar arduamente e que o faria pela noite dentro, interrompendo apenas para nos vender os papos-secos quentinhos. E nós acabávamos a noite no cruzeiro a deliciarmo-nos com o pão quente com manteiga.

Fig. 4 - Manel Rato, junto ao pio da fonte Arcada

O Manel Rato foi também o sacristão de travanca, cargo que ocupou mais de cinquenta anos. Tinham também um outro irmão chamado Abel Rato que penso ter sido agricultor.



  

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Figuras do meu tempo

 

Fig. 1 - Tonito Estoira

O Tonito Estoira, nome pelo qual era conhecido, para quem foi da minha geração, dispensa apresentações. Faz também parte das figuras incontornáveis dos últimos anos, e também um amigo. Tinha um jeito simpático de ser e de receber. A sua voz, embora carregada, muito rouca, era sempre acompanhada por um sorriso ou uma piada.

Sempre de pirisca ao canto da boca e um tintinho por perto, tinha sempre uma palavra amiga, era um brincalhão! Eu e o meu irmão tínhamos uma brincadeira comum com ele, que era empurrarmos o seu boné para trás, ou para a frente sempre que o víamos…ele não levava a mal, tentava agarrar o boné para não cair e respondia de imediato - ah! Galego! Traita…

Certo dia, estava ele nas escadas da igreja ao pé do cepo do Natal em brasa, com muita gente á roda e o meu irmão, à socapa, manda lhe a boina ao chão, que cai ao pé da fogueira, ficando chamuscada. Levou a coisa na brincadeira, como sempre, mas sempre que via o meu irmão dizia que lhe devia uma boina! Comigo aconteceu outra coisa. Ele tinha um isqueiro de petróleo, antigo, que troquei com ele por um eletrónico. Cada um pensou ter feito um bom negócio, eu porque fazia coleção de isqueiros e ele por ser uma coisa moderna mas, o meu rapidamente deixou de funcionar e ele chateava-me sempre que me via – Ah! Galego, ainda me deves um isqueiro!


quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Figuras do meu tempo

 

Fig. 1 - Maramar

MAR A MAR

Se há uma figura típica de travanca de Lagos, bem impressa na minha mente, do fim da década de 70 e inícios dos anos 80, foi este senhor, o MAR A MAR. Conhecia-o desde a minha infância, aliás, temia-o, eu e todas as crianças desse tempo! Era uma figura imponente, parecia um gigante aos olhos de uma criança, e as suas feições que, quando se dirigia a nós, numa espécie de sorriso engelhado, com os olhos semicerrados, proferia um estrondoso berro como se estivesse a mandar um foguete ou um morteiro, ou então, estivesse a cair uma rajada – três! Pum! Pum! - e a criançada fugia a sete pés!

Só lhe conhecia a alcunha. Lembro-me da sua figura, vestido de escuro com o chapéu na cabeça, meio desengonçado e um guarda-chuva às costas na albarda, a subir lentamente e com alguma dificuldade estrada acima em direção ao Zambujeiro, às vezes com a sua pasteleira a servir de bengala, bastante embriagado, seu estado normal à noite, que, suspeito, durante o dia fosse um homem atinado e trabalhasse nas obras, como pedreiro ou servente. Mas ao fim do dia de trabalho descia ao Povo para apanhar a piela do costume e, pelo caminho, assustar a miudagem!


Fig. 2 - Zambujeiro 2009

Há medida que fui crescendo deixei de o ver ou simplesmente deixei de dar importância àquela personagem que ficcionara e temera. Acho que nunca lhe tinha falado, até que, em 2009 fiz as pazes com a minha infância. Aproveitando uma visita ao Zambujeiro, passei por ele de carro e parei. Falei -lhe por breves momentos, era afinal simpático e afável. Rimo-nos e tirámos umas fotos que aqui deixo como testemunho do nosso encontro.

Agora sei, chamava-se Mário dos Santos, foi realmente pedreiro, e vivia no Zambujeiro. Era da família do histórico autarca de travanca e meu amigo, o senhor Tomaz dos Santos Pedro, que me confirmou o problema grave do seu tio com o alcoolismo e alguma violência associada, que culminara com o internamento e desintoxicação no hospital Sobral Cid, em Coimbra. Quando regressou à Terra, já não bebia, passando a residir no Lar de travanca, tendo sido um dos 5 últimos utentes antes do seu encerramento. Faleceu em 2013, em Avô, para onde foi transferido depois do fecho do lar de travanca. Lar , que nos faz falta!


segunda-feira, 29 de maio de 2023

Travanca de Lagos - uma Terra cheia de surpresas



Travanca Judaica

(cap.3)


Desde a época pré-histórica que Travanca de Lagos tem partilhado com as Terras limítrofes um percurso rico em história e património. Foi assim desde o calcolítico, passando pelo período romano, árabe ou durante a época medieval. No entanto, a partilha de protagonismo não se verifica quando nos referimos a um passado Judaico que, em Travanca, se tem vindo a descobrir, como testemunham os múltiplos vestígios encontrados. Constitui, mesmo, um caso singular no contexto da nossa região.

Devemos regozijar-nos com esse facto, pois coloca Travanca na rota das Judiarias em Portugal. Contra factos não há argumentos. Travanca de Lagos é um caso ímpar no nosso concelho e os achados são dignos de serem preservados, estudados e mostrados.

Desde 2012, data das primeiras descobertas, foram contactadas diversas pessoas especializadas na área e convidadas a conhecer e a pronunciarem-se relativamente a esta pegada judaica em Travanca. Especialmente relevante foi a vinda, em 2018, do arqueólogo do município de Gouveia Joel Correia e a sua equipa, apaixonados que são e grandes conhecedores desta temática, a convite do arqueólogo Rui Silva do município de Oliveira do Hospital. Eles encontravam-se a desenvolver, nessa altura, um projeto complexo de adesão de Gouveia à rota das Judiarias de Portugal, baseados em descobertas duma comunidade judaica em Gouveia em 2014. Ficaram agradavelmente surpreendidos e entusiasmados com o que encontraram em Travanca, não restando dúvidas da importância deste património. 

A autarquia de Oliveira do Hospital ultimamente, percebendo a sua importância, interessou-se e procura encontrar uma forma de valorizar este legado, no contexto da nossa região.

Fig. 2,3 e 4 –Antiga casa da Quinta do Veríssimo, em ruínas, com simbologia cruciforme 



 
 Fig. 5,6,7 e 8 – Simbologia cruciforme na Casa dos Moleiros junto à ponte e ao lagar do rio Cobral

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A descoberta dos referidos vestígios, maioritariamente simbologia cruciforme nas ombreiras das portas, tem aumentado nos últimos anos, à medida que exploramos novas áreas à volta da povoação, como são exemplo disso a Quinta do Veríssimo (fig. 2 a 4) ou as casas dos moleiros, junto ao lagar do rio Cobral em Travanca (fig. 5 a 8).

        


Fig. 9,10,11,12 e 13 - Simbologia cruciforme em casas da Rua do Outeiro

  
      

 Fig. 14 a 17 - Simbologia cruciforme em porta biselada numa casa da Rua do Outeiro de Cima

Surpreendentemente, o mesmo se passa quando exploramos a zona histórica, agora com um olhar mais atento, encontramos novos achados interessantes, como aconteceu na Rua do Outeiro (fig. 9 a 17) ou na Rua José da Silva Garcia (fig. 18 a 22). Encontrámos uma casa com a mesma simbologia, em Lagares da Beira (fig. 23 e 24), sugerindo ter lá vivido um Cristão-novo ou um Marrano, como eram conhecidos na época «mar anuss», ou seja, «homem convertido à força»), à semelhança do que aconteceu em Travanca de Lagos. Mas percorremos, também, Negrelos, Andorinha, Vendas de Galizes, Bobadela, Oliveira do Hospital, entre outras terras adjacentes, sem que se descobrisse qualquer pegada judaica.
  

Fig. – 18     Fig. 19, 20,21 e 22 - Simbologia cruciforme em casas na Rua José da Sila Garcia


Judeus Sefarditas, conhecidos como os descendentes dos judeus de Portugal, de Espanha e de Marrocos, é o termo usado quando se referem aos judeus da Sefarad, palavra que em hebraico significa Península Ibérica, e que se distinguem dos judeus Asquenazes, oriundos da Europa Central e do Oriente. Terão começado a vir depois da destruição do segundo templo de Jerusalém, depois do  séc. II, que levou ao êxodo do povo Judeu, conhecida como a segunda diáspora hebraica. A sua convivência com os vários povos, romanos, visigodos, mouros e cristãos, nunca foi pacífica mas teve longos períodos de sã convivência, em contraponto com os períodos de perseguições e intolerância.

Com o Édipo de expulsão de Castela, em 1492, entraram em Portugal milhares de Judeus fugidos de Espanha, que se fixaram especialmente na Raia mas, também, nas terras do interior, procurando segurança e oportunidades. Provavelmente, juntaram-se a pequenas comunidades judaicas locais ou a famílias judias já estabelecidas, procurando Terras com oportunidades de negócio ou, simplesmente, por mero acaso. Qual teria sido o caso particular em Travanca? Haveria já alguma pequena comunidade ou judiaria pré-existente?



 Fig. 23 e 24 - Simbologia cruciforme numa casa em Lagares da Beira

Desde essa fatídica data, até à atualidade, passaram mais de 500 anos chegando até nós apenas as marcas no granito, que o tempo não apagou, e que testemunham esse passado, também de Travanca. É como se se tratasse de um segredo bem guardado, que não houve interesse em revelar, quer a judeus, quer a cristãos. Sabemos pela História que estas comunidades, poucos anos após se terem fixado em Portugal, foram perseguidas, ostracizadas e, descontentes, ou conseguiram fugir ou se submeteram a um penoso processo de conversão ao cristianismo, ainda no reinado de D. Manuel, em 1496. Sabemos que passaram pelo período negro da Inquisição desde a sua instituição em 1536, por D. João III, até à sua extinção em 1821, em plena revolução liberal. À semelhança de todo o país, os Travanquenses passaram quase 300 anos de uma prática desumana de terror, perseguição e tortura, que atravessou, provavelmente, muitas gerações que acabaram por se converter, miscelanizar, procurando sobreviver ao fado trágico da história, até se tornarem numa memória longínqua e cairem no esquecimento.
Quando descobrimos um novo símbolo cruciforme na ombreira de uma porta, seja mais elaborado, como se tratasse de um selo de orgulho de uma comunidade assumida, ou seja com uma forma mais tosca e apressada, como um selo de vergonha resultando de um acto de descriminação e perseguição, não vemos apenas um símbolo, imaginamos muitas histórias e muito sofrimento. Efetivamente, já não podemos dissociar esses factos da história de Travanca, que no início ainda se chamava São Pedro de Travanca e não Travanca de Lagos. 
Tradicionalmente, estas comunidades podiam reunir todas as classes sociais. Dominavam a escrita, tinham profissões liberais, como medicina, advocacia, ou podiam ser escrivãos mas também, e muito frequentemente, se dedicavam ao comércio e à usura, ou seja, emprestavam dinheiro. Eram mestres no artesanato, especialmente alfaiates, ferreiros ou sapateiros, podendo ter comércio itinerante ou fixo, em lojas ou tendas. Dum modo geral, as suas atividades permitiam estarem sempre preparados para a necessidade de uma fuga eminente.
Em Travanca há uma certa tradição e presença, precisamente, destes três ofícios, ligados a algumas famílias que os mantiveram de pai para filho, ao longo de várias gerações. Há Alfaiates na família Correia e Correia de Lemos, Sapateiros na Família Aires ou Silva Aires e Ferreiros na família Carvalho, mas estes dados apenas se reportam ao fim do séc. XVIII e XIX.
 

Fig. 25– Porta e janela quinhentista com lintel e ombreiras biseladas

A entrada, em grande escala, desta rica comunidade em Portugal, no séc. XVI, levou ao enriquecimento das nossas terras e ao desenvolvimento do património civil. Este acontecimento parece, também, coincidir com o período mais faustoso de Travanca, refletindo-se na sua arquitetura civil, nomeadamente nas casas com os lintéis das janelas e portas biseladas. Característica distinta e reveladora de um estatuto mais abastado, conotada com essa época e também com esta comunidade (fig. 25), espalhada por todo o centro histórico e que, definitivamente, urge proteger. Os exemplos dessa associação entre a arquitetura civil e o judaísmo /criptojudaísmo são muitos mas iremos abordar, sucintamente, 4 exemplos mais á frente.

À procura da Mezuzah
 

Fig. 26 e 27 – porta com possível Mezuzah

Um elemento importante e irrefutável da presença judaica, e não apenas da presença de cristãos-novos, é a Mezuzah. Comummente descrita como sendo uma concavidade vertical nas ombreiras das portas, a 2/3 de altura, com cerca de 10 cm de comprimento e cerca de 2 cm de largura e profundidade, destinava-se a abrigar, de forma total ou parcial, um estojo que continha um pequeno rolo de pergaminho com as palavras iniciais do texto do Shemá Israel, “ouve, ó Israel, o Eterno é nosso Deus; o eterno é um”, uma das orações fundamentais do povo judaico, que mandava recordá-lo e escrevê-lo nas ombreiras das portas. Apesar da procura insistente pelas portas das casas mais antigas da aldeia, ainda não foi possível observar nenhum desses elementos com certeza. O exemplo da figura 26 e 27 é meramente hipotético. Encontra-se na casa da família Martins Borges (http://travancacomhistoria.blogspot.com/2018/10/pessoas-de-travanca-com-historia.html), tem o que aparenta ser uma Mezuzah no sítio certo, mas não na porta principal. Pode, também, tratar-se de uma porta reutilizada de outra construção contudo, segundo Isabel Madeira, trineta de Manuel Martins Borges que foi o seu primeiro construtor ou reconstrutor, há uma certa ideia de um passado judaico, longínquo, na família.

Crê-se que possam existir mais exemplos, por baixo dos rebocos das ombreiras das portas ou nos batentes dentro das casas, especialmente no centro histórico. A procura continua…


Fig.28 – Exemplos de elementos cruciformes encontrados
Os elementos cruciformes de que se tem falado, e que mais comummente encontramos nas ombreiras das portas, também são conhecidos por marcas na Mezuzah visto que, em hebraico, Mezuzah quer dizer, precisamente, umbral ou batente. Têm sido muitos e diversos os exemplos encontrados constituindo, no total, um conjunto muito interessante e significativo. (fig. 28)

Os armários Judaicos ou Haron Hacodesh

Fig. 29– casa do Zambujeiro,exemplo 2   fig. 30 - casa do largo,  exemplo 4       fig. 31- Casa do Outeiro    fig. 32 - casa museu da Junta de freguesia  


De igual forma, assim como foi referido para a Mezuzah, a existência de armários judaicos também é prova inequívoca da prática religiosa judaica. Tal como descrito num artigo anterior, (http://travancacomhistoria.blogspot.com/2013/10/cronicas-da-minha-terra-cap-iii.html), o armário judaico servia como altar litúrgico. Geralmente embutido na parede, composto por pedras únicas, duas laterais, uma superior, uma inferior e uma mediana, que o separava em dois espaços. O superior recebia o Menorah, ou candelabro de 7 braços, e o inferior recebia o rolo da Torah, o livro sagrado para a celebração do culto religioso. Há descrições de um pequeno sulco circular, inferior, para receber o dito rolo sagrado. Por vezes é descrito como estando orientado para oriente, embora nesse ponto não haja consenso. Quanto aos 4 possíveis exemplos encontrados em Travanca, até ao momento, todos têm orientações diferentes. Com orientação a nascente só os altares da igreja matriz. Todas as casas com estes elementos têm marcas na Mezuzah e duas casas apresentam os lintéis e ombreiras das portas e janelas biselados. Nenhum apresenta o sulco inferior e uma parte tinha ou ainda tem marcas de fumo, mostrando que, a serem judaicos, foram tendo outros fins que não o originalmente pensado.
Fig. 29 - Casa do Zambujeiro, exemplo 2 – orientação norte
Fig. 30 - Casa do Largo, exemplo 4 – orientação sul
Fig. 31 - Casa do outeiro – orientação sul
Fig. 32 - Casa do museu etnografico  da junta de freguesia – orientação poente

Casa exemplo 1- Uma casa misteriosa, tipicamente judia?
 
Fig. 33 a 36

Está localizada no centro histórico, perto da igreja matriz. É uma casa medieval com a sua estrutura e fachada original preservadas, sendo geminada com outra que tem a data de 1623 inscrita numa pedra, junto à sua porta. A data de construção pode ter sido anterior. Embora sejam separadas, comunicam entre si. De frente para uma encruzilhada, sobressai um elemento cruciforme bem lavrado no granito da esquina. A julgar pelas características habitualmente consideradas como sendo as de uma casa tipicamente judia, ou de mercador Cristão Novo com ascendência judia esta não parece deixar dúvidas. É composta por duas portas no piso inferior, uma mais larga que serve a oficina e outra mais estreita que dá acesso ao piso superior habitacional, neste caso particular por meio de uma escada interior bastante básica, feita em madeira. A sua enorme fachada de granito sobressai por apenas ser rasgada por um pequeno janelo, estilo postigo, embora tenha outra de dimensões normais na ponta. Para além disso, está envolta num certo misticismo. Quando era pequeno havia o hábito, que talvez viesse já de longe, bem longe, de à noite, ao passar na estreita viela escura e sombria, fazer figas. As crianças passavam a correr e nem olhavam com medo que algo de mal lhes acontecesse. Hoje está desabitada mas, nesse tempo, vivia lá uma velhota que diziam ser bruxa e que nunca se sabia se estava à espreita pelo seu pequeno e único postigo. Quando na época pensávamos ser a bruxa a ameaça, passávamos pela casa a correr cheios de medo e com ideias ocultas de segregação. Essa atitude poderia estar associada à memória coletiva do povo de Travanca, traduzida pela marginalização quer do espaço, quer dos moradores que nela habitavam. Podemos comparar essa vivência com as antigas perseguições religiosas movidas aos Judeus/Cristãos Novos de outras épocas e que se foi perpetuando no tempo, nesse mesmo espaço. Não há fumo sem fogo ou será uma mera coincidência?

Recentemente, em conversa o Sr. Albertino Tomás, nascido e criado na mesma rua mas há muitos anos a residir na capital, contou-me que, em criança, quando ele ou os irmãos se portavam mal logo os pais lhes diziam: -“parece que vives na casa dos judeus”, referindo – se a esta casa. Um testemunho que fala por si!

Fig. 37 e 38 - Sr. Albertino Coradinho 


Um dos filhos dos antigos proprietários é atualmente o homem mais idoso a viver em Travanca, o Sr. Albertino Marques Miguel com 97 anos, conhecido por Coradinho (fig. 37 e 38), que, quando questionado sobre este assunto, respondeu com total desconhecimento. Os pais chamavam-se António Francisco Miguel e Idalina da Conceição e a avó era Teresa Bernarda. Um dos irmãos casou-se nos Fiais e era sapateiro.

Todas estas características fazem dela uma casa peculiar.

Casa exemplo 2 – Uma casa com sinagoga?



Fig. 39 a 40 - Conjunto do Zambujeiro, vista lateral e aérea
Situada no Zambujeiro, fora do perímetro urbano mais antigo, esta casa parece ser um retiro, longe dos olhares indiscretos. O conjunto é composto por três casas geminadas em L, a última das quais (casa C) tem a data, preservada no granito da fachada, de 1649. No extremo oposto é composta pela habitação mais recente, já dos inícios do séc. XX (casa A). No entanto, consegue-se adivinhar nesse local uma casa bem mais antiga, contemporânea da primeira. Exteriormente, sobressai nesta uma porta, no piso inferior, com o lintel abobadado, nada habitual nestas paragens, e encimada por um janelo que fica ao nível do chão do piso superior, parecendo um posto de vigia.


Fig. - 40, 41 e 42 - Casa A e B, pormenores

Perpendicular a esta casa, e geminada com a sobredita primeira casa, destaca-se uma outra (casa B), hoje um pouco alterada mas, mantendo também um pequeno janelo enigmático, ao nível do chão do piso superior. A entrada dá para uma sala ampla, única, o centro da qual ostenta um armário de granito, embutido na parede, que faz lembrar um armário judaico, o referido Aron Hakodesh, tal como descrito num artigo anterior, (http://travancacomhistoria.blogspot.com/2013/10/cronicas-da-minha-terra-cap-iii.html). À entrada da casa encontramos, também, um elemento cruciforme escavado na parede. Poderá tratar-se de uma pequena sinagoga residencial onde, longe dos olhares indiscretos, se podiam reunir e rezar?

Por outro lado, a sobredita casa C, com a data esculpida de 1649, tem uma história curiosa pois, segundo contam, pertenceria a alguém de Rio de Mel terra que, segundo o Dr. Francisco Antunes, tem ou teve um forte passado Judaico. O Dr. Francisco conta que, quando exercia medicina na periferia e dava consultas nessa terra, as pessoas, ao entrarem no consultório, mantinham sempre um ar muito desconfiado, olhando sempre por traz dos ombros, à esquerda e à direita, como se estivessem a ser perseguidos. Ele achava que eram, ainda, reminiscências do criptojudaísmo. Refere, também, que nessa aldeia havia a tradição dos alfaiates ambulantes. Estes deslocavam-se em burras ou mulas, com todo o material que necessitavam, como a máquina de coser e os tecidos, hospedando-se na casa do cliente até terminarem o fato. De certa forma, podemos conotar esta situação com a presença judaica, no sentido de estarem sempre preparados para uma eventual fuga em caso de perseguições. 


Casa exemplo 3 – Uma casa de Cristãos-novos



 
 
Figs. - 40 a 43
Situada à entrada do Outeiro, a antiga e principal estrada que servia a população e que levava ao centro do Povo, esta casa surge sem nenhuma característica especial. O que chamou a atenção foi que, após ficar devoluta, iniciaram-se algumas obras na fachada. A remoção do reboco, junto à entrada principal, deixou à mostra vários elementos cruciformes, distintos e muito bem preservados, aos quais ninguém pode ficar indiferente nem deixar de os considerar relevantes, do ponto de vista histórico, como pertença de uma casa de família de Cristãos-novos. Não foi, ainda, possível e oportuno visitar a casa por dentro.

Exemplo 4 – Casa museu, uma proposta

 


 
Fig. 44 a 48 – Casa esquerda do largo 

Trata-se de um exemplo de casa muito interessante, por reunir várias características singulares que poderíamos conotar com a presença judaica. A má notícia é que está em ruínas, com risco de desmoronar. Fica no centro histórico, muito perto do templo cristão que é a igreja matriz. Tem portas e janelas biseladas e marcas na Mezuzah. Apresenta um armário em pedra, já aqui descrito (fig. 30), ficando bastante recuada do alinhamento das outras casas, como se estivesse ao fundo de um corredor. Por último, um outro pormenor que a distingue é a existência de um alçapão na sala, suficientemente camuflado, sendo o único acesso a uma loja no piso inferior que, embora dê para o dito pátio ou corredor, não tem portas ou janelas. Poderia tratar-se de um esconderijo perfeito, se entrarmos no imaginário das perseguições ao povo judeu.

 
 
Fig. - 49, 50 e 51 – Portas das casas do largo, esq. e dta

 
Fig. 52 e 53 – Casa família Madeira

 
 

Fig. - 54 - Casa à esq. da Junta (família Fogueiras) fig. 55 – inscrição no lintel – "Anos 1743"  fig. 56 e 57 – cruciformes nas ombreiras

 

Fig. 58 e 59 – Casa em frente à junta  fig. 60 e 61 – Casa do museu etnografico da junta frede guesia fig. 62 – Muro do jardim da junta 

Esta é a primeira de algumas casas que estão geminadas, interligadas, partilhando as marcas cruciformes, algumas com portas biseladas e outra também com armário, numa rua que, como foi já descrito num artigo anterior em 2013, (http://travancacomhistoria.blogspot.com/2013/11/judeus-e-cristaos-novos-em-travanca-cont.html) apresenta casas com fachadas muito interessantes e suspeitas, dos dois lados da rua. Desde essa data, até ao momento, já se fizeram mais descobertas. A própria antiga casa da família Ibérico Nogueira, atualmente sede da junta de freguesia, que terá sido construída, ou reconstruída, no séc. XVIII, quando a família se implantou em Travanca, poderia ter sido edificada sobre escombros de outras ou sobre a base de uma ou duas casas do mesmo tipo, aqui referenciado, dado que tem uma área de implantação grande. No jardim da junta ainda se podem observar muitos vestígios de outras construções, havendo elementos cruciformes, já aqui apresentados, nos muros das imediações (fig. 62). 


                        Fig. 64 – Cruzes a vermelho (cruciformes soltas em casas ou muros) Fig. Vermelhas – casas judeus/cristãos novos

                         Círculo amarelo – Judiaria? Círculo branco – 2º conjunto de casas junto a Rua José da Silva Garcia

                         Linha verde – antiga estrada principal da povoação

A dita rua, agora chamada da Junta de Freguesia, após a análise do número de casas ali encontradas com marcas de um passado judaico, como ficou exemplificado, faz pensar que no local poderá ter existido uma pequena judiaria, embora não passe de uma mera hipótese que é, no entanto, perfeitamente plausível. Tendo isso em consideração e vendo o estado de ruína a que chegaram as casas do largo, que encerram ainda um valor histórico incrível e sobreviveram a um período medieval cheio de história, não se pode deixar de considerar o local o sítio ideal para implementar um museu judaico. Fica aqui, uma vez mais, o repto lançado! É urgente intervir!
 (texto revisto por Helena Duarte)