sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Travanca antiga

fig. 1



Umas curiosas pedras sulcadas, tipo goteira, que se destacam nas fachadas de algumas casas em Travanca, chamam a atenção.  Parecem ser uns adereços bastante antigos, de aspeto medieval. Identifiquei quatro exemplares, em vários locais de Travanca, todas muito parecidas, quer no tamanho, quer na forma, denotando poderem ser da mesma época. São estruturas usadas para o escoamento de águas, mas no caso concreto, descobri que servem para canalizar para o exterior, longe da parede, as escorrências que provêm das pias da cozinha. Fazem, portanto, parte de um conjunto que se compõe de pia em pedra e sistema de esgoto. Dos quatro conjuntos encontrados, um já não tem pia, que segundo o proprietário, foi removida  nos anos 70 (fig. 2).

fig. 2 - goteira sem pia

Outro dos exemplares está completo (fig. 3,4 e 5), no entanto a casa encontra-se abandonada, infelizmente muito degradada, tendo uma data inscrita de 1694/9 (fig. 6). 

fig.3 -  goteira vista de frente

fig.4 - goteira vista de perfil

fig. 5 -  pia


fig. 6 - inscrição de data

Em relação aos  outros 2 conjuntos, um apresenta a pia, ainda que atualmente não sirva esse fim (fig. 8 e 9), a outra ainda não tive a oportunidade de entrar dentro da casa, para confirmar se forma um conjunto completo (fig. 10).  

fig. 8 - goteira com pia


fig. 9 -  pormenor da  pia


fig. 10

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Crónicas da minha Terra, Cap. III

Judeus e Cristãos Novos em Travanca


Como temos constatado, Travanca de Lagos é uma povoação muito antiga, talvez das mais antigas de toda a região, tendo na sua zona histórica ainda um testemunho vivo dessa realidade. Já nas Inquirições de D. Afonso III vem referido que, no tempo de D. Sancho I, por volta de 1180 D. Dulce de Aragão, sua esposa e rainha de Portugal, comprou aqui 19 casais, o que mostra que já nesse tempo Travanca seria muito desenvolvida. Mas, terá sido, provavelmente, no séc. XV e XVI que Travanca atingiu o seu apogeu, a julgar pelo vasto património existente com o cunho dessa época, como sejam as portas e janelas biseladas, mas também muitos outros sinais que ainda não sabemos interpretar.


Recentemente várias coincidências, puro golpe de sorte para mim, levaram a uma descoberta muito interessante. Tudo Começou com um fogão a lenha, em pedra, que fotografei um pouco à pressa, sem grandes condições, numa antiga casa medieval em Travanca. Quando mostrei a fotografia ao Dr. Francisco Antunes, pessoa que muito estimo, que para além de médico detém grandes conhecimentos de história, nomeadamente de história local, e que se preocupa também com as questões do património, este revelou-me que a dita peça talvez pudesse ser judia.


Segundo ele, os judeus, que tinham no sábado o seu dia santo, o Sabat, nele não podiam realizar tarefas domésticas, nem mesmo cozinhar. Sendo assim, seria a sexta-feira o dia escolhido para as limpezas da casa e para a confeção da comida, inclusivamente a destinada às refeições de sábado, que mantinham quente nesse fogão, talvez a brasas e borralha. Nesse contexto, falou-me um pouco da história desse povo, das perseguições, dos convertidos, dos cristãos novos e do criptojudaísmo.



Falámos das suas casas típicas e de como estavam relacionadas com as profissões. Era um povo virado para os negócios, para as artes e ofícios, desde ferreiros, sapateiros a alfaiates e também para as profissões liberais, como o notariado ou a medicina, funcionando no piso inferior das suas casas as oficinas ou lojas e no piso superior a habitação, a que acediam por meio de escadas internas. Apresentavam uma porta para as escadas que davam para a habitação no piso superior e uma outra, mais larga, para a loja. Tinham, geralmente, uma janela e um pequeno janelo que servia para vigiar. Algumas casas tinham, também, passadiços e alçapões. Tudo estratégias para iludirem as autoridades.


fig.1 -casa onde se encontrou o fogão
fig. 3 - fogão - pormenor superior
fig. 2 - fogão - pormenor de frente

Quando, no dia seguinte a esta conversa, visitei um amigo e entrei na sua propriedade, uma quintinha bem recatada no zambujeiro e que em tempos fora pertença do Sr. Jerónimo Figueiredo, segundo o meu amigo pessoa abastada, deparei-me com a sua casa, de aspeto muito antigo, na qual sobressaia uma interessante porta com a verga em arco e encimada por um pequeno janelo, tudo com o granito à mostra. Como tinha a conversa do dia anterior ainda presente, fez-me pensar que podia tratar-se de uma casa judia.


fig.4 - suposta casa judia
fig. 5 - detalhe da fachada

Efetivamente são várias casas e não uma só, correspondendo a mais que um período no tempo, todas interligadas e já com muitas alterações que nos confundem um pouco. Mas, qual não é o meu espanto quando, na primeira que visitei (fig. 4, ao fundo na imagem), que se compõe de loja e de 1º andar amplo, encontrei uma estrutura central, inserida na parede, que primeiro me sugeria ser um “fogão judaico” mas que, após investigar no dia seguinte, me pareceu tratar-se de um Armário Judaico ou Aron Hakodesh, armário onde os judeus guardam, na divisão inferior, os rolos da Torah - Pentateuco ou Livros da Lei, para serem lidos durante o culto religioso, e, na divisão superior, o Menorah - candelabro de sete braços ou lâmpada perpétua. Embora, como se pode ver na figura, este esteja globalmente preservado não está completo, pois a pedra inferior ficou tapada quando subiram o piso em aproximadamente 30 cm, o que nos impossibilita de reparar se a pedra tem os dois pequenos círculos típicos para sustentar o rolo da Tora. Segundo o proprietário a pedra inferior mantem-se intacta, apenas coberta com o cimento.


fig. 6-  Provável Aron Hakodesh

fig. 7 - Os rolos de Torah - livro sagrado
fig. 8 - Menorah - candelabro de 7 braços

Mantive-me a explorar e dei com uma saída nas traseiras, que dá para uma rua que liga o Zambujeiro a Travanca, quando me deparei com outra casa que também me sugeria ter características judaicas e ainda outras que, não sei se por sugestão ou não, me ofereciam desconfiança. Parecia estar numa Judiaria, obviamente tudo meras suposições. Voltei, na semana seguinte, com o Dr. Francisco Antunes que também ficou entusiasmadíssimo com os achados e ainda mais ficou quando soube que uma das casas vizinhas, que se encontra já em ruínas, pertencera a alguém de Rio de Mel, povoação que, segundo ele, tem um passado com forte implantação judia.


fig. 9 - casa da rua do zambujeiro




fig. 10- casa da rua do zambujeiro- de frente


Constatámos que, uma característica comum a várias destas casas era a existência de uma Pilheira, que consistia num armário embutido na parede, todo em pedra,  onde possivelmente as pessoas guardavam a LUZ e o livro sagrado.  Só resta um exemplar numa das casas, embora os proprietários  de duas outras habitações se lembrem de terem  tido algo similar nas suas.

O passo seguinte foi procurar, na zona histórica de Travanca, pistas da presença judaica ou de cristãos novos, nomeadamente de simbologia cruciforme  junto das casas, que atestassem a sua presença entre nós. No 1º dia acompanhou-me, nessa façanha, o meu velho amigo, também aficionado da história local, Carlos Martins. Começámos por uma antiga casa que é pertença da sua família  infelizmente em avançado estado de degradação, que em tempos teve um passadiço. Descobrimos que sob a caliça, caída ao longo dos tempos, se afigura uma data de 1746, encimada por uma cruz. No interior, a casa apresenta outros sinais de ser bem mais antiga, nomeadamente uma porta com as ombreiras e a verga biseladas, que a remetem para o séc. XVI.



fig. 11 -  casa á esq.   com o passadiço ao fundo, ruído 
fig. 12 - pormenor da inscrição

Continuamos pela rua do Terreiro, e junto à Travessa do  Terreiro, deparámo-nos com duas singularidades: uma casa muito sui generis, com um pequeno janelo, e logo a seguir, na casa que fica na esquina da travessa, uma cruz gravada na pedra, Eureca! A casa ao lado tem uma data inscrita de 1623.




fig. 13 - casa na rua do terreiro
fig. 14 - Cruz na casa da travessa


fig. 15 - pormenor da inscrição da data

Seguimos para a Rua do Outeiro, sempre procurando características nas casas que nos revelassem algo, até que, por fim, numa pequena travessa  encontrámos mais uma casa com um elemento cruciforme.



fig. 16 - travessa no Outeiro
fig. 17 - casa com elemento cruciforme


fig. 18 - Pormenor da cruz

Voltámos atrás e subimos pelo Rua do Forno do Senhor até ao largo da igreja matriz e aí, mais uma vez, deparámo-nos com outra casa muito interessante, pertencente atualmente à família Madeira, que também tem inscrita uma figura cruciforme, mais complexa, estando contida numa circunferência que depois é encimada por outra cruz. Existe, também, um pequeno pátio que serve de entrada a duas outras casas, infelizmente bastante degradadas, a pedir rapidamente uma reabilitação, ambas com as portas e janelas biseladas.


fig. 19- fachada com cruz
fig. 20 - detalhe
fig. 21 - outros pormenores

Quando me aproximei para fotografar as casas reparei que na ombreira da porta existia uma cruz, embora muito ténue  No seu interior pude observar um armário em pedra de granito, junto à lareira, e uma pequena divisão com uma provável pilheira, uma outra sala com janela de conversadeira, nas portadas, muito antigas, tinha um postigo e no chão um pequeno alçapão, que leva à loja. Todos estes achados, muito interessantes, estão em risco de desaparecer, pelo abandono a que estão votadas estas duas casas. 




fig. 22 - casas do pátio
fig.23 - porta e janela biselada

fig. 24 - ombreira com cruz


fig. 25 - armário embutido em granito


fig. 26 -pequena pilheira
fig. 27 - pormenores da sala


Quando voltei a esta aventura acompanhado pelo Dr. Francisco Antunes ainda encontrámos mais dois símbolos cruciformes, um junto ao forno  comunitário, um pouco descontextualizado, e o outro na ombreira de uma antiga porta, mas que presentemente, talvez há muitas dezenas de anos, faz de enchimento num antigo muro.


fig. 28 - Antigo muro com cruz

fig. 29 - elemento cruciforme em pedra

Fotografei, ainda, uma antiga casa, já em ruínas há muitos anos, na Rua do Outeiro, que curiosamente tem uma pilheira no seu interior. Fica aqui o registo. Quanto à teoria de que os judeus tivessem por cá passado, e muitos cá permanecido, convertidos à fé católica, mantendo o judaísmo na intimidade do lar, penso que é uma hipótese perfeitamente plausível, existindo imensos casos descritos na Beira Alta, fazendo parte inclusive dum roteiro judaico. Por último, é de referir que o período da expulsão dos Judeus de Castela pelos reis católicos, a partir de 1492, coincide precisamente com o dito período mais faustoso de Travanca.


fig. 30 - antiga casa em ruínas no Outeiro

fig. 31 - fachada superior interna

fig. 32 - pilheira
Como é óbvio, todas estas suposições que aqui foram levantadas carecem de confirmação. Gostava muito que pudessem vir a Travanca especialistas nesta área estudar estes achados e talvez outros que nós não vimos, para que se pudesse intervir neste património tão rico que Travanca tem com políticas de conservação e protecionismo, evitando assim a delapidação de património arquitetónico e de memórias de um povo tão antigo. É urgente intervir!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Homenagem a Lanzner





Queria aproveitar este espaço para, em jeito de homenagem, lembrar António Luís da Silva Reis Santos, meu sogro, pessoa que muito estimava e que nos deixou no passado dia 6 de Janeiro de 2013.

Artista Plástico, conhecido pelo pseudónimo de Lanzner, dedicou a sua vida à Pintura, Escultura, Gravura e Desenho e nos últimos anos também à Poesia, tendo deixado um vasto espólio artístico de grande valor. Era natural do Porto, cresceu em Lisboa onde conviveu com grandes artistas como António Duarte, Leopoldo de Almeida, Barata Feyo, Cottinelli Telmo, Dordio Gomes, entre outros, ao que não é alheio o fato do pai ser um historiador e um grande crítico de Arte de então, o que lhe proporcionou o meio ideal para despertar para a arte. Radicou-se em Coimbra, nos anos cinquenta, quando o pai, Luís Reis Santos, tomou posse como Diretor do Museu Machado de Castro, cidade onde Lanzner viria a desenvolver a sua paixão artística.


Lanzner auto-retrato

Foi uma personalidade singular. Quem com ele conviveu conheceu-lhe muitas outras facetas, nomeadamente o homem engenhoso e amante da ciência e da técnica. Possuía uma grande cultura, com vastos conhecimentos sobre diversos assuntos, sendo um privilégio e um prazer ser seu interlocutor.

O seu sentido artístico não pôde deixar de admirar também as belas paisagens de Travanca de Lagos quando, a meu convite, visitou a nossa terra. Era um seguidor assíduo deste blogue, pelo que, é com imenso respeito e saudade que aqui o recordo, terminando com um poema seu, extraído do livro, ainda não publicado, Terra Inaudita.


                                                          PRESENTE E FUTURO


                                    O presente?
                                    O presente é ir para a frente
                                    E ter de presente o passado
                                    Estando prometido o futuro.
                                    É dar um passo no escuro
                                    E ter logo em todo o lado
                                    Qualquer dia embrulhado
                                    Como um presente colorido

                                   E o futuro?
                                   O futuro está prometido
                                   É sempre outro passo no escuro
                                   E outro dia embrulhado
                                   Como um presente colorido

                                   Mas o desejado futuro
                                   Que seja a nosso gosto colorido
                                   Verá de nos afastarmos do escuro
                                   Onde se deve deixar o passado
                                   Bem lembrado e vivido.

                                                                António Lanzner


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Capela de Stº António









A capela de Stº António é uma pequena capela rural, existente em Travanca de Lagos. Caracteriza-se por apresentar uma arquitetura vernacular, construída em cantaria de granito de aparelho irregular, com uma planta longitudinal simples e com um espaço único, sendo a cobertura homogénea em telhado de duas águas. Apresenta uma fachada principal que termina em empena, com cornija, coroada por uma pequena sineta. Os cunhais são encimados por dois pináculos que ladeiam uma cruz de Cristo  também em cantaria, sendo um pináculo em forma piramidal simples e o outro piramidal com esfera, ambos assentes em plintos. Apresenta uma porta fronteira de lintel reto, sem moldura de cantaria, ladeada à esquerda por pequena fresta vertical, que serve de óculo para o seu interior. A fachada esquerda é rasgada por uma janela de verga reta, também sem moldura e ladeada à esquerda por uma fresta vertical com vista para o altar. 



vista geral do interior
pormenor do altar


Quando se abre a porta e entramos na capela, o espaço envolvente consegue-nos surpreender. A contrastar com o austero granito do exterior, do chão e da mesa do altar, estão as paredes rebocadas e pintadas de branco, um teto abobadado em madeira, de um azul esverdeado sóbrio, ornado com duas pinturas de cariz popular, surgindo ao fundo, em destaque,  o altar branco em talha, com alguns pormenores dourados, ornado também com pinturas sacras de cariz popular e um santo António em madeira policromada, que no conjunto faz transparecer luminosidade e aumenta a nossa noção do espaço. O interior está a necessitar de algumas obras de restauro, particularmente, o altar,as pinturas e a escultura.


Pintura no teto lateral esquerdo
Pintura no teto lateral direito

A capela está implantada numa pequena encosta, no largo de Stº António, ao fim da rua do fundo do lugar. Segundo é referido pelo Sr. Ivo Pereira, que todos reconhecem ser uma fonte fidedigna, e que aqui no blog irei apelidar de "a nossa fonte", foi restaurada no fim do 1º quartel do séc. XX, entre 1923 e 1924, com o financiamento total de Luís Martins Borges,  uma figura ilustre de Travanca. Luís Martins Borges nasceu em Travanca de Lagos em 15/09/1854, era filho de Manuel Martins Borges e de Ana Maria, naturais de Travanca e Negrelos respetivamente. Viveu no Brasil onde fez fortuna, mas, vinha a Travanca frequentemente e, segundo podemos avaliar por registos existentes, a estadia prolongava-se por longos períodos, especialmente na década de 20, participando ativamente no panorama  socio-cultural de Travanca da época. Há um registo fotográfico da Tuna de Travanca onde ele aparece retratado ( tema já aqui elaborado). 

Luís Martins Borges
Outro exemplo de  registos é o  livro de atas e deliberações da Mesa da Irmandade de Sªº Pedro, onde está escrito que  ele exerceu o cargo de mordomo efetivo no ano de 1923/24 e de juiz em 1924/25, embora por impedimento seu tenha nomeado outro irmão da irmandade  para este último cargo. Segundo a nossa fonte,  faleceu no Brasil em 1936, vítima de uma queda, tendo ficado sepultado por terras de Vera Cruz.

Vem referido no Dicionário Geográfico de Portugal, vol. 37, nº97, p. 1049 a 1054, em Memórias Paroquiais de 1755, que esta capela de Sto. António já existia na época. Portanto, no mínimo, podemos datá-la em meados do séc. XVIII, mas supôe-se mais antiga. Desconhecem-se  as razões da escolha do local e  a  motivação para a sua construção. Não se descobriu  também se houve instituição de algum vínculo à capela. 

sábado, 21 de abril de 2012