segunda-feira, 26 de maio de 2014

A história do futebol em Travanca de Lagos


O
Futebol
em
TRAVANCA DE LAGOS





Contar a história do futebol de Travanca de lagos não se afigura tarefa simples. É um desafio difícil, visto que, as histórias que se vão contando, especialmente dos 1ºs tempos, são memórias muito antigas, sem a precisão dos acontecimentos. É, portanto, um processo sujeito a alguns erros, ainda assim, que vale a pena tentar. Como este resumo histórico se direciona principalmente para os Travanquenses, são usadas muitas referências a familiares, na nomeação dos jogadores, para melhor reconhecerem as pessoas. 


Segundo se conseguiu apurar, com testemunhos inestimáveis, do Sr. António Brito e do Sr. Messias, o futebol em Travanca já se jogava em meados dos anos 40, primeiro, por brincadeira, até se tornarem uma equipa a sério. Faziam parte desse primeiro lote de jogadores, o Sousa, cunhado do Messias, o Salvador, defesa direito, o Chico Brito, médio avançado, e o irmão, Raúl Brito, o Chico Madeira, conhecido por Chico Narra, era guarda-redes, o Necas, filho do reformado, António Abreu e Augusto Abreu, pai do Russo e do Zé Padeiro, António Capado, Adelino Pratas, o Renato Gonçalves, que também era Guarda redes, entre outros. Disputavam jogos amigáveis com as terras limítrofes, como Negrelos e Bobadela, no campo do Lameiro e, depois, no terreno que viria a ser o campo de Travanca chamado, nessa época, de campo da Gaga. Já na década de 50, o campo era alugado por 100$00 ao ano e na década de 60 por 150$00. Equipavam de camisola branca ou amarela, com gola azul, e calções azuis ou pretos. Tinham a sede na Liga de Melhoramentos e chamavam-se Sport Club Os Leões.



Na década de 50, em 1953, era responsável pela equipa o Sr. Couto, genro do Sr. Diniz, já jogava o Sr. Messias, recém-chegado da tropa. Era defesa direito. Desse ano, ele possui uma extraordinária fotografia de grupo (fig.2), tirada no campo da Gaga, onde, para além dele, está o Chico Brito, o Duarte, que veio a ter o comércio das campas, o Artur Pratas, que era guarda-redes, o Adérito, filho do Zé Ribeiro, o Telmo de Negrelos, o António, de acunha, Mosca Tonta, filho da Sarita,  o Chico Campos, o Luis Brás, marido da Natércia, o Chico Manel, filho do Antonino do Zambujeiro, irmão do Eugénio e, por fim, o Jesus que era escriturário na secretaria da Casa do Povo. Na foto vê-se, ainda,  um homem de costas que era o Sr. António Brito, Presidente da Junta e da Casa do Povo de Travanca.



Fig. 2 - Sport Club Os Leões de Travanca de Lagos – 1953 (Foto a melhorar) De pé da esq. para a dir., Adérito, Chico Campos, Duarte, Messias, Luis Brás, Artur Pratas. Em baixo, da esq. para a dir., Telmo de Negrelos, Mosca Tonta, Chico Brito, Chico Manel e, Jesus.



Em 1955/56, tinha o Sr. António Brito 23 anos, e, regressado do cumprimento do serviço militar, passou meio ano na terra, antes de voltar para Lisboa. Refere que, nessa altura, aproveitou para jogar, visto que de outra forma só o poderia fazer nas férias. Era já um craque, jogava futebol em Caneças, e depois noutros clubes, também por Lisboa. Quando chegou, foi ele quem pagou os 100$00 do campo para poderem voltar a jogar. Nesse ano, participaram num torneio com o Touriz, com a Bobadela e com Gavinhos, tendo Ganho ao Touriz, lá, 2-1 e em casa 3-2, com a Bobadela ganharam lá 3-1 e com o Gavinhos, ganharam no campo da Gaga 5-4, tendo o Sr. Brito saído lesionado. Faziam parte da equipa, nesse tempo, ele a central, mas, muitas vezes ia primeiro à frente marcar uns golitos e, na 2ª parte, tentava defender o resultado, o Messias a defesa direito, o Quintino a defesa esquerdo, o Artur Pratas a médio, o Jorge Figueiredo à frente, o Mário Figueiredo à baliza, o Zé Abreu à defesa e a meio campo, o Augusto Brasileiro à frente. Jogava, também, o Francisco Manel do Zambujeiro e o Vítor Fonseca, quando vinha de férias. O Sr. Brito refere que, naquele tempo, às vezes para fazerem a equipa tinham que ir buscar jogadores fora. Era o caso do 27 e do Chalau de Touriz e do Delminho de Negrelos.





Fig. 3 - Sport Club Os Leões de Travanca de Lagos – anos 60 ( de pé, 3.º da esq.-Renato, 1.º da dir.- Mário Figueiredo, em baixo, 2.º da esq. - Carlos Pratas, restantes - desconhecidos)

Quanto ao equipamento, a julgar pelo nome da equipa Sport club Os Leões de Travanca de Lagos, sugeria que fosse ”à Sporting”. No entanto, o Sr. Messias não se lembra de ter jogado alguma vez com essa camisola. Já o Sr. Brito diz que chegaram a trajar “ à Sporting” no início da década de 60. De acordo com o Sr. Carlos Marques, jogador de Travanca dos anos 70, o equipamento “à Sporting” só foi adquirido, trazido de Lisboa, após o torneio de Vila Franca, já em meados dos anos 60. Desses tempos não se conhecem fotos, mas dos anos 70 e 80 há várias que o podem testemunhar.

Fig.4 - Sport Club Os Leões início dos anos 70 ( de pé da esq. para a dir. Sérgio Gonçalves e  João Pedro, Tonito Saca, 2.º da dir. Artur Pratas. Em baixo, da esq. para a dir. Carlos Pratas, Carlos Marques, Arnaldo, Russo e o último o Zé Pizorga)


Fig. 5 –Encontro de gerações, anos 60, 70 e 80
 Fig.6 – Equipa improvisada com convidados, destaca-se o Padre Manel e o Sr. Feliciano 
Fig. 7 – Travanca a jogar no campo da Gaga, anos 70

Fig.8 – Sport Club Os Leões, finais dos anos 70 ( de pé da esq. para a dir. Tonito Saca, Zé Pizorga, Carlos Pratas, Zé Neto, Zé Manel Figueiredo, Toni de Negrelos, Russo, ?, Artur Pratas. Em baixo da esq. para a dir., Zé Marques, Pinto de Travancinha, Zé Manel, Raúl, Chico Melro, Mário Marques e Baltazar)

Entretanto, outras gerações de jogadores emergiram e nomes como Jorge e Mário Figueiredo, Joaquim e Zé Pisorga, João Pedro e Tomás Pedro, ou os irmãos Carlos e Artur Pratas, entre outros, aparecem na década de 60 e 70 e, de uma forma mais organizada, estabelecem a prática da modalidade. Nesse sentido, existe até um livro de atas (fig. 9 e 10) com o nome na capa de Sport Club Os Leões, datado de 1963. Pena é que, apenas estão registadas duas atas, uma de 21/4/1963, onde consta que, nesse domingo se disputou, no campo de Travanca, um encontro amigável de futebol, contra o grupo desportivo de Póvoa de Midões, cujo resultado foi um empate a 2-2. A 2.ª ata refere-se ao domingo seguinte, dia 28/4/1963, em que jogam novo encontro, desta vez, com o Grupo Desportivo de Touriz, que perderam por 5-2, ficando marcada a desforra para o domingo seguinte.


Fig. 9 – Livro de atas do SC Leões
Fig. 10 – Atas de 1963



O clube nessa época participou nalguns torneios, visto que não integrava nenhum campeonato oficial. Destaca-se o torneio da União Desportiva Vila-franquense, em Vila Franca, onde Travanca desferrou um mítico 8-1, num clássico com Lagares da Beira, tendo alcançado o 2.º lugar no final. Jogaram os irmãos Pisorga e os irmãos Artur e Carlos Pratas, entre outros. Outro torneio da época, muito comentado pelo Russo, foi o das Seixas, com o clube local, Seixas futebol Club, que tinha uma equipa recheada de brasileiros, que passavam férias na terra, mas que Travanca ganhou por 3-1. Segundo consta, estava prometida uma jantarada, mas com a vitória inesperada de Travanca, terminou com um punhado de amendoins.




Fig. 11 - Sport Club Os Leões – anos 60/70



Em meados da década de 70 surgiu uma nova geração de jogadores, Os Piratas. Segundo referem algumas glórias da altura, como o Manuel Marques, conhecido por Russo, que era o goleador da equipa, o Carlos Marques, defesa, ou o Sérgio Gonçalves, o mítico guarda-redes de Travanca, o 1.º equipamento dessa nova equipa foi adquirido através do recurso aos brindes oferecidos pelas Pastilhas Piratas, daí o nome da equipa, e que, para tal, tiveram que consumir centenas de pastilhas para juntar os respetivos cupões e, assim, receberam as camisolas, que tinham o emblema das pastilhas. Alguém ofereceu um tecido, de cor verde, que permitiu fazer os calções e os nºs das camisolas, tendo o trabalho de costura sido feito pela Elsa Gonçalves, irmã do Raul Gonçalves, outro dos craques da equipa.



Fig.11 - Pastilhas piratas
Fig.12- Emblema




Iniciaram-se como uma equipa de juvenis, depois de juniores e, aos poucos, foram integrando o plantel principal. Os equipamentos foram variando (fig. 12 a 17).

Fig. 13 – Primeira equipa de Os Piratas, finais dos anos 60


Fig. 14 –  Russo
Fig. 15 – Zé Marques
Fig. 16 –  Tonito Saca



Fig. 17 -  Os Piratas, treinada pelo Sr. Arnaldo, conhecido por futleman


Fig. 18 – Zé Marques e Carlos Marques  

Entretanto estes jogadores foram compondo a equipa principal, que jogava bem e tinha bons resultados nos jogos em que participava. Aspirava, por isso, a jogar noutro patamar. Em 1/10/1977, o clube refundou-se com o atual nome, Grupo Desportivo de Travanca de Lagos, com a intenção de participar no campeonato Distrital do Inatel e, já na época de 77/78, iniciou uma epopeia que só terminou na final com o Lorvanense, em Mortágua, jogo que Travanca perdeu por 1-0.


Fig. 19 - Equipa de Travanca – juniores no inicio dos anos 70 ( de pé da esq. para a dir. Zé Manel Bispo, Sérgio Marques, António Manuel Soares, Raul Gonçalves, Tonito Saca e Sérgio Gonçalves. Em baixo da esq. para a dir., Mário Marques, Zé Neto, Zé Marques, Manel Marques (Russo) e Carlos Marques


Fig. 20 – Em pé, Zé Marques, Sérgio e Russo, em baixo, Carlos Marques


Fig. 20 – Os Primos, Raul e Sérgio Gonçalves
Fig. 21 – Russo e Sérgio


Mas, para a participação nesse campeonato, houve primeiro que melhorar o velhinho campo da gaga que, segundo conta Mário Figueiredo, era abaulado e por conseguinte, de uma baliza não se avistava a outra. Tinha, ainda, um velho castanheiro dentro do campo, junto à linha de fundo, perto da baliza, que tinham que contornar. Havia, ainda, uma questão fulcral, a D. Eulália, proprietária do terreno, mandou lavrar uma parte para semear centeio. Corriam o risco de ficarem sem campo.



Em 9/10/1977, o sino tocou a rebate e o povo ocorreu ao campo para ajudar a fazer pressão, no sentido de reaverem o campo. Por fim, a proprietária cedeu, começando os trabalhos de reconversão. Com uma máquina escavadora e com a ajuda das enxadas foi nivelado e preparado. Foram colocadas novas balizas, substituindo as velhinhas de madeira por metal, colocadas as redes e, com placas de aglomerado, foi todo vedado. O campo foi rebatizado de campo 9 de Abril. Posteriormente foi comprado pela direção do clube, composta na altura pelo presidente, o Sr. Falcão de Brito, o secretário, o Sr. Mário Figueiredo e o tesoureiro, o Sr. Joaquim Azevedo. Nesse tempo, os jogadores equipavam-se na Casa do Povo, só mais tarde foram construídos os balneários no campo. A equipa vestia de vermelho com calções azuis ou brancos, depois de amarelo e calcões azuis, que representava o equipamento oficial.



Portanto, nessa época de 77/78, jogam o campeonato distrital do Inatel. O 1º jogo realizou-se em casa, com o Vasco da Gama de Candosa, que Travanca venceu. Fizeram uma campanha vitoriosa, ficando à frente da sua série. A final, que permitia apurar o representante por Coimbra, realizou-se em Mortágua, com o Lorvanense, jogo que travanca perdeu, nos últimos minutos, por 1-0. Segundo referem, estando o jogo empatado, quase no final, ouviu-se um apito e o nosso defesa direito, o Raul, apanhou a bola à mão na área, julgando ser o fim do jogo. Afinal, o apito vinha do público, tendo o árbitro marcado penálti, que os de Lorvão converteram e ganharam, assim, o jogo e a final. Travanca foi vice-campeão. Na época de 78/79 mantiveram-se no Inatel.


Fig 22 – Jogo amigável, anos 70 ( Travanca de vermelho e calção preto)


Fig.23 – Uma equipa alargada, final dos aos 70



Na época seguinte, 79/80, travanca ingressa na Associação de futebol de Coimbra e participa no campeonato da 3.ª divisão Distrital. Foi, por isso, necessário adquirir mais terreno para ampliar o campo, construir os balneários, enfim, proceder aos melhoramentos exigidos pela nova competição. Inicia, este período, o Sr. Carlos Pratas como dirigente do clube. O equipamento oficial, com as cores do club, era camisola amarela e calções azuis, oferecido e patrocinado pela empresa Correia e Pratas (fig. 25). O equipamento vermelho, também usado, foi oferecido pelo Sr. Salvador (fig. 26). Na época de 80/81,Travanca torna-se campeão Distrital, vencendo a taça de Encerramento (fig. 27) frente ao Bota Fogo, no campo de São Pedro Alva, por 2-1. Os golos foram marcadas, pelo capitão Toni, de penalti e o 2º foi marcado pelo nosso avançado, Russo, a cruzamento de Artur de Negrelos.



No ano seguinte, época de 81/82, foram vice-campeões, perdendo na final, com o Ulmeirense da Granja do Ulmeiro, no campo do União de Gavinhos, concelho de Coimbra, por 2-1.

Fig. 25 – Equipamento oficial ( de pé da esq. para a dir. Sérgio, Jorge Bispo, era avançado, Chico de Negrelos, Zé Neto, Zé Manel Figueiredo, Toni de Negrelos, era o capitão, Zé Carlos das Vendas, era médio. Em baixo da esq. para a dir.  Zé Manel Bispo, Artur de Negrelos, Russo, era avançado, Zé Manel, Chico Melro, Varito de Andorinha, jogava a médio)

Fig. 26 – Equipamento alternativo( de pé da esq. para a dir. Zé Manel Poipo, suplente, Mário de Negrelos, defesa esq.,Mário Marques,médio dir., Chico Melro,médio esq., Luis das vendas, médio centro,Toni de Negrelos, defesa central. Em baixo da esq. para a dir. Zé Manel Bispo, defesa esq.,Sérgio Gonçalves, guarda redes, Zé Neto, defesa central, Artur de Negrelos,extremo esq., António Campos, o nº10, Zé Manel Figueiredo, extremo dir.)

Fig. 28 – Equipa campeã 80/81
Fig.29 – Jogo do campeonato 80/81











Fig. 27– Taça de Encerramento 80/81


Fig. 30 – Equipa nos anos 80


A partir de 1982, Travanca manteve-se no campeonato Distrital, tendo como dirigente o Sr. Carlos Pratas, que esteve à frente do departamento de futebol, no total, cerca de 20 anos. Seguiu-se o Sr. João dos Santos Pedro, também velha glória de Travanca, cerca de 2 épocas, após o qual houve um interregno. Na época de 94/95, o Sr. Neves reinicia o futebol tendo a Associação Desportiva de Travanca de Lagos entrado novamente no campeonato do Inatel. Culminou na época de 2000/2001, equipava Travanca de azul (fig.31), com uma campanha vitoriosa, que terminou na final, com a equipa de Paradela, em Arganil. Essa final, estando o jogo empatado aos 90 minutos, terminou em penaltis. Segundo contam, o árbitro, muito tendencioso e prejudicando Travanca, mandava sempre repetir o penalti mas, por fim, a equipa adversária falha e Travanca concretiza, havendo invasão de campo imediata. O encontro terminou mal, com muitos nervos à mistura e uma zaragata pelo meio, entre o árbitro e um nosso jogador. Como resultado, Travanca foi erradicada do torneio e do campeonato do Inatel. Nesse ano era dirigente o Sr. Fausto.


Fig. 31 – AD Travanca de Lagos, época de 2000/2001


A partir da época de 2001/2002, o Sr. Santos pega na equipa e, pela 2.ª vez na história do futebol local, iniciam o campeonato da Distrital, da Associação de Futebol de Coimbra, agora 1.ª Divisão Distrital, série A . O equipamento oficial era camisola vermelha e calção branco.





Fig. 32 - AD Travanca de Lagos, época de 2001/2002


A partir da época de 2003/2004, tendo como dirigente o Sr. Zé António Cerveira, que manteve essas funções até á época de 2005/2006, iniciaram um periodo memorável, tendo atingido, nessa época, o 4.º lugar, assumindo-se como a melhor classificação de sempre na história do futebol de Travanca. O equipamento oficial era novamente o amarelo e azul, da bandeira do clube.


Fig. 33 – AD Travanca de Lagos, Inatel, finais da década de 90


Fig. 34 – AD Travanca de Lagos, época de 2005/2006



Seguiram-se, ainda, mais duas épocas, sendo dirigente Rui Ribeiro em 2006/2007 e, terminado o futebol na época de  2007/2008, com Travanca a chegar ao 6.º lugar, sólido no meio da tabela, sendo na altura presidente o Sr. José Manuel Peixoto Silva. 
A história do futebol dos anos 90 e 1.ª década de 2000 foi aqui pouco desenvolvida, ficando para melhorar, futuramente, num 2.º capítulo. Existem muitos registos na sede do clube, ao contrário do que aconteceu nas 1.ªs décadas, que é necessário consultar para evitar erros.


Fig. 35 – AD Travanca de Lagos, ano 2005, convívio de gerações



Fig. 36 – AD Travanca de Lagos, época de 2007/2008



Desde 2008, o departamento de futebol está inativo. A sede do clube, que se situa na Casa do povo, necessita de uma intervenção urgente, visto haver risco de degradação do património e dos documentos do clube. Os troféus estão a salvo (fig. 38) mas o espólio fotográfico está danificado. O campo de jogo também necessita de uma manutenção rápida (fig. 37). Na verdade, o clube está a precisar de entrar novamente em competição, nem que seja, como nos primeiros tempos,  participando em torneios locais.


Fig. 37 – Campo de futebol de Travanca de Lagos


Fig. 38 – Espólio de troféus do clube, na sua sede

Fontes:


Suporte fotográfico:



Reprodução do Espólio fotográfico da AD de Travanca de Lagos -Fig. 8, 31, 32, 33, 34 

Espólio fotográfico de Carlos Marques - Fig. 4, 13, 14, 15, 16, 17, 18,
Espólio fotográfico de João Duarte Fig. 1, 9, 10, 28, 37, 38 
Espólio fotográfico de Mário Figueiredo - Fig - 3
Espólio fotográfico de Messias - Fig. 2
Espólio fotográfico de Sérgio Gonçalves - Fig. 5, 6, 7, 11, 19, 20, 21, 22,23,24, 25, 26, 28, 29, 30, 35

Entrevistas realizadas aos Srs.:
Mário Figueiredo, Jorge Figueiredo, António Brito, Messias, Sérgio Gonçalves, Manuel Marques (Russo), Carlos Marques, Carlos Pratas, Zé António Cerveira, Neves.



sexta-feira, 4 de abril de 2014

Lanzner – Vida e obra (parte I)



Lanzner - auto-retrato


Fez um ano, em janeiro, que faleceu António Luís da Siva Reis Santos, artista plástico conhecido com o pseudónimo de Lanzner, fazia em 26 de março 78 anos. Partiu o artista, ficou a sua obra. O seu legado, uma coleção vasta composta por óleos, desenhos, gravuras, medalhas e esculturas, é em grande parte desconhecido, quer pelos seus pares e pelo público em geral, quer atualmente pelos críticos de arte. Por estar certo da importância da sua obra e do seu grande valor artístico, queria homenageia-lo, uma vez mais, neste espaço, criando no blog uma rubrica dedicada à sua vida e obra.

Em relação à sua atividade artística, no seu curriculum consta o seguinte: -Natural do Porto, viveu em Lisboa onde despertou para a atividade artística que viria, mais tarde, a desenvolver, em Coimbra, nos domínios do desenho, pintura, escultura, e gravura. Em 1959 expôs pela primeira vez os seus trabalhos em Coimbra, individualmente, e participou também numa exposição coletiva em Viana do Castelo. Desde então fez exposições, com uma certa frequência, em vários pontos do país, especialmente da região centro.

Na sua 1ª Exposição, na Galeria 1º de Janeiro - Lanzner (1º da dta.) com o seu pai, Luis Reis Santos,  Mário Silva, entre outros.

Lanzner durante a sua 1ª exposição em 1959.

O desejo de conhecer melhor a Arte levou-o a fazer viagens de estudo a Espanha, Inglaterra e França. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo frequentado a “École National Superieure des Beaux Arts de Paris” e o “atelier” do Prof. Chapelain Midy.
O interesse pelos processos de fundição de obras de Arte deu origem a que fizesse algumas medalhas diretas, de tiragens reduzidas, de: Manuel Jardim, Elísio de Moura, Rainha Santa Isabel, Teixeira de Pascoaes, Alexandre Herculano e Afonso Lopes Vieira.
De estudos que fez de desenho e de gravura deixou publicado um pequeno texto, “Do Desenho-Elementos formais”; e um folheto “Noções Fundamentais de Gravura”, integrado numa exposição de carácter didático.
Ilustrou os livros de poesia de Eduardo Aroso, “O Olhar da Serra” e “ A Quinta Nau”, e alguns desenhos seus fazem parte do livro de Maria Alice Gouveia e Beatriz Mendes Paula, “Leituras”, para o ciclo preparatório do ensino secundário, publicado no ano lectivo de 1970-71.Teve ainda a função de consultor artístico em diversas realizações.

Está representado em diversas  instituições públicas como o  Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra com dois óleos, uma aguarela e uma gravura, no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto, com um óleo e uma pintura a tinta da China, no Museu de Francisco Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco, com um óleo, no Museu Municipal Dr.Santos Rocha, na Figueira da Foz co um óleo e uma gravura, no Governo Civil de Coimbra com um óleo, na Câmara Municipal de Coimbra com uma aguarela e na Câmara Municipal de Leiria com uma medalha de Afonso Lopes Vieira.


Os  pássaros


Do período que passou em Paris, destaco a  realização de uma obra  notável, “Os Pássaros”, que segundo refere A. Nunes Pereira, “ é uma admirável tela que à primeira vista nos parece puramente abstrata, mas que, ´`a medida que a contemplamos nos vai revelando uma multidão de pombas, como a lembrar o célebre soneto de Raimundo Correia". Foi, aliás, sobre esta  e outras  telas de Lanzner que René Huyghe fez um dia uma lição aos seus alunos do Collège de France, onde era professor de Psychologie des Arts Plastiques, figurando esta pintura na sua importante obra, Les signes du temps et l'art moderne. A propósito de Lanzner, René Huyghe, refere no Anuário do Collège de France, em 1966/67, que “L´étude, dans leur chronologie, des oeuvres d´un jeune peintre portugais, Lanzner, cherchant avidement sa voie, a montré qu´il pouvait pratiquer avec la même sincéritté les deux “grammaires” et faire même de leur alternance les termes d´une dialectique intérieure en quête de sa synthèse. Complètement assimilées, maniées avec une aisance égale, elles renforcent la valeur expressive cherchées par la symbolique obscure et irraisonnée des images: en efect, elles sont mises au service d´une unité superieure qui ne réside plus dans l´agencement des formes ou dans le jeu des forces mises en action, mais dans l´unité de la vie intérieure qui se cherche et se révèle à travers ces manifestations parfois divergentes dans leurs moyens mais convergentes dans leur source.” 
(cont.)

quinta-feira, 13 de março de 2014

O crime da Pantera

Fig. 1

No início do séc. passado a nossa região da Beira estava bastante apaziguada, no que diz respeito a crimes violentos, bem diferente dos loucos anos do séc. XIX, especialmente a 1ª metade, pródiga em histórias de faca e alguidar. Um homicídio na Beira Alta em meados do séc. passado seria muito raro, contudo, quando sucedia, tornava-se famoso, como parece ter sido o caso do crime que ocorreu entre Travanca e Lagares, em 5 de abril de 1937, há quase 77 anos atrás, que ficou conhecido como o crime da pantera, tendo-se tornado célebre e largamente difundido. Segundo conta António Azevedo, de Travanca, mais conhecido por António Cabaço, e confirmado também pelo Dr. Francisco Antunes, que é uma referencia da história local, nesse fatídico dia de Abril, uma viúva de alcunha Pantera, numa acesa discussão com o seu amante, chamado Passinho, ambos de Lagares da Beira, em virtude da senhora não ter acedido aos intentos do seu companheiro, que queria certos bens em seu nome, e, voltando eles do registo de Oliveira do Hospital, talvez por um atalho, passaram por uma antiga ponte, que ficou conhecida daí em diante pela alcunha da viúva – Ponte da Pantera, o Passinho, seu amante, atirou-a ponte abaixo, ficando vários dias desaparecida.

Ponte da Pantera
Açude no rio Cobral

A questão tornou-se um caso de polícia, e a notícia fez correr muita tinta, vindo inclusive noticiada e caricaturada no periódico humorista lisboeta, Os Ridículos (fig. 1 e 4). O corpo, sem vida, já desnudo, apareceu dias depois preso nas margens do rio Cobral, descoberto por um travanquense, conhecido por Xico d’Amélia, numa zona do rio que hoje lhe deve também o nome – Xico d’Amélia, em tempos um recanto ótimo para banhos. O corpo terá galgado seis açudes e vencido muitos obstáculos até se encravar naquele lugar. Muita gente ocorreu ao local para testemunhar o ocorrido, incluindo o Dr. Francisco, que era ainda um miúdo de escola.

Fig. 4
O homicida Passinho foi capturado e preso, mas não se livrou, ao jeito das cantigas que fizeram sobre João Brandão, de lhe dedicarem em verso uma cantilena:

“No dia cinco de Abril
Um crime se passou
         José de Oliveira Passinho
  A Pantera assassinou”


sábado, 21 de dezembro de 2013

Judeus e cristãos novos em Travanca de Lagos(cont.)

Tribunal da Inquisição de Coimbra - 1572 a 1821


Na sequência da recente investigação, sobre a presença de cristãos novos em terras de Travanca, fez-se uma interessante descoberta que se relaciona com a existência de um Processo do Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra,  no qual era acusada de blasfémia, Paula Fernandes, uma senhora natural da Venda de Gavinhos, freguesia de Travanca de Lagos, isto em 24/05/1604. Refere ainda o documento que, Paula Fernandes, era filha de António Fernandes e de Catarina Anes, encontrando-se viúva de António Afonso, lavrador de profissão. Não constam datas de nascimento. Vem descrito que o seu estatuto social era 1/2 Cristã-Nova. Eureca! Mais uma vez confirma-se que cristãos novos passaram por Travanca, e não apenas só os indícios deixados nas ombreiras das portas de granito. Pena é que poucos processos estejam tratados arquivisticamente, e portanto, indisponíveis para consulta online. Há sempre a esperança que apareçam mais processos da nossa região, mais concretamente de Travanca de Lagos. Outro dado muito interessante, dessa época, é a naturalidade do Inquisidor-mor de Coimbra, João Alvares Brandão, título que auferiu em 2/9/1603, que embora nascido em Sameice, em 1555, era filho de João Alvares Brandão e de  Catarina Alvares, ambos de Travanca de Lagos. Ficam aqui registadas estas curiosidades!

Artigo publicado na Folha do Centro em 19 dezembro de 2013

Francisco Antunes
Francisco Antunes
Só se ama aquilo que se conhece!
O nosso país é uma enorme manta de retalhos, modesta e humilde, sempre viva e surpreendente. Se dela levantarmos o “farrapito” que nos coube para viver – a Beira Serra -, este não destoa do conjunto, e é no Outono que atinge o apogeu da sua formosura: a luz, a transparência do ar, o colorido das florestas, o cristalino das águas que correm…e com um pouco mais de esforço descobriram as suas gentes e a admirável História da região.

Desçam lentamente qualquer das vias que a Serra ou da estrada Real vão ao encontro do Alva! De Vila Cova e Sandomil, passem por S. Gião, Penalva, Caldas, Sto. António, S. Sebastião, e Avô e as suas admiráveis Varandas; uma pausa em Vila Cova do Alva e sosseguem em Coja…deliciem-se com o constante movimento dos cenários deste fantástico palco.
A cascata do Alva é um permanente louvor à Natureza e um hino ao engenho do Homem. Tudo…harmonia do Belo!

Se da folhinha da História levantarmos mais um “farrapinho” do último quartel do Séc. XV, aparece-nos uma região de múltiplas carências, sem vias de comunicação, forte isolamento, insegurança nos caminhos, ausência quase total de pontes. Densa floresta cobria o território. Assaltos frequentes de ladrões, lobos e ursos obrigavam os raros viajantes a deslocarem-se sempre em grupo, viajantes constituídos por monges, frades, cobradores de impostos, alguns freires das ordens militares, todos armados pois transportavam rendas e esmolas, para conventos e mosteiros.

Contudo, na última década do seculo deram-se na Península Ibérica notáveis acontecimentos que muito abalaram as populações na sua forma de viver. O descobrimento do caminho marítimo para India em 1498, a descoberta do brasil em 1500, a expulsão dos Judeus de Espanha em 1492 e a descoberta da América em 1493. Nesta época eramos cerca de um milhão de habitantes com 98% de analfabetos…de Espanha recebemos cerca de duzentos mil “expulsos” com 40% de analfabetos…ficaram a construir quase 20% da população. Nota curiosa: em 1975 vieram de Africa 300.000 portugueses, tínhamos dez milhões…acrescentaram a população em 3%!!!

Embora D.Manuel numa lamentável medida tivesse expulsado alguns milhares de recém-chegados no interior do reino, tal não se verificou e foi esta “gente de nação” que, felizmente, deu notável impulso ao desenvolvimento da Beira Serra e a todo o interior do País.

A construção naval teve desenvolvimento explosivo com as carreiras da India e do Brasil, centenas de naus, caravelas e mais tarde, galões, foram construídas; calafates, carpinteiros, cordeiros, tecelões, ferreiros e outras profissões atulhavam os estaleiros de Lisboa. Do interior houve um fluxo migratório para o litoral que em parte foi compensado com as gentes chagadas de Espanha e a nossa Beira-Serra não faltam criadores de gado, curtidores, samarreiros, sapateiros, alfaiates, comerciantes de panos, de tripa, de especiarias, azeite, vinho e cera; almocreves e carreteiros que lhes davam o controlo dos transportes.

No território hoje está ocupado pelo nosso concelho existem interessantes marcas desse tempo em toda a ribeira d’Alva, Vila pouca, Lourosa, Bobadela, Travanca e Ervedal.
Travanca, na minha modesta opinião, detêm o mais bem conservado núcleo histórico dessa época que, embora modesto, se encontra bastante desprezado e até, lamentavelmente, mutilado.

É povoação muito antiga; já é referida em documentos de 969 e a presença de sepulturas e lagaretas bem elaboradas não deixam dúvidas que ali, antes daquela data, já se produzia vinho e azeite. A sua igreja dedicada a S. Pedro, de três naves, está datada no Séc. XI, foi modificada através dos séculos e enriquecida com belos azulejos hispano-árabes e notáveis altares barroso que denota fé, riqueza e nível social dos seus habitantes. Curiosamente as três igrejas do conselho com três naves são todas dedicadas a S. Pedro: Lourosa, Seixo e Travanca. Três templos dos mais antigos da região.

A Fonte Arcada onde desde o começo do tempo…se praticam magias, curas milagrosas, se “ergue a espinhela ou se corta o cobrão”…mas o mais interessante é que “Arcada” tem origem numa palavra grega que significa- mistério, remédio!!! Quem pôs o nome aquela misteriosa fonte?
Travanca é Histórica, Enigmática… Misteriosa. Sim, é modesta mas é merecedora de um estudo adequado e de uma proteção responsável.
É natal!
Paz, Esperança, Saúde para todos vós

Artigo elaborado por Dr. Francisco Antunes