domingo, 24 de outubro de 2010

Fotos antigas - Baptizado



Travanca de Lagos no pós-guerra. Um dia solene e também um dia de fartura a contrapor ao dia-a-dia de austeridade.

domingo, 17 de outubro de 2010

O misterioso Cemitério do Lameiro


Existe uma cruz de ferro, chumbada numa pedra tosca de granito, ocasionalmente visível num mato exuberante, que assinala um terreno sagrado, segundo se diz. O povo confirma-o, não por que conheça algo que o comprove, mas porque faz parte da sua memória colectiva. Todos são unânimes em dizer que aquele pedaço de terra no Lameiro foi em tempos o cemitério de Travanca. Ainda a corroborar essa história há o facto dessa pequena parcela de terreno ainda hoje pertencer à igreja.

A contrastar com o possível passado sagrado do referido terreno está o actual estado de abandono, a que constantemente é votado. Falta repor a sua dignidade procurando os factos históricos. Caso tenha sido um cemitério, que esclareçam as circunstâncias da sua criação e também do seu abandono

Objectivamente, tirando a referida cruz, o terreno não parece ter as características de um cemitério. Não tem um muro organizado que o delimite, nem nunca parece ter tido. É uma pequena elevação de terreno de forma triangular, rodeado por um lameiro, sem capacidade de ampliação. Portanto, tudo leva a querer que poderá ter sido um cemitério de recurso, talvez o 1º cemitério de Travanca de Lagos.



A prática dos enterramentos em cemitérios é relativamente recente, sendo a forma mais comum o enterro dentro dos templos ou nos adros das igrejas, modelo este que estava profundamente enraizado no Ocidente cristão desde a Idade Média. A mesma situação se passava na freguesia de Travanca, havendo assentos de óbito a partir de 1583 que referem exactamente essa prática. Concretamente, sepultavam os seus mortos dentro da igreja dando, às vezes, a sua localização, como é o caso de um assento em 1586 onde escreveram sepultada perto do alpendre, ou outro já mais tardio, que escreveram sepultada à porta principal desta igreja, ou ainda, enterravam no adro da igreja ou Adro de São Pedro. Cerca de 1650 começa também a aparecer a designação de capela de São Pedro. Por volta de 1700 mantêm a mesma prática, mudando apenas alguns nomes, ou seja, na Igreja de São Pedro ou no Alpendre de São Pedro ou ainda também na Ermida de São Pedro. Ao longo de todo este periódo foram sendo também enterrados na Capela de São João Batista, que fora uma capela instituída por João Alvares em finais do séc. XVI e que se situa dentro da igreja de Travanca, havendo vários registos de óbito ao longo dos séc. XVI e XVII até cerca de 1752 que o comprovam. Obviamente que apenas lá eram sepultados os instituidores e os seus descendentes. Os enterros no adro deixaram de se fazer por volta de 1722.


No séc. XVIII esta prática medieval de enterrarem os defuntos começa a gerar discussão. De facto, a necessidade de criação dos cemitérios públicos em Portugal vem descrita já desde o terramoto de 1775. As pessoas mais esclarecidas da época chamavam à atenção para os riscos para a saúde pública dessa prática de enterramento nas igrejas. A 1ª legislação sobre esta matéria foi da autoria de Rodrigo da Fonseca Magalhães, Ministro do Reino e curiosamente natural de Midões, que institui especificamente, pelos decretos de 21 de Setembro e de 8 de Outubro de 1835, a obrigatoriedade de criação de cemitérios públicos fora das povoações.




Mas, para surpresa nossa, muito antes dessa legislação entrar em vigor já tinha sido criado um cemitério em Travanca. Curiosamente, foi em 13 de Julho de 1811, em plena invasão Francesa, que o prior João Ferreira Machado e Silva procedeu pela 1ª vez a um enterramento no Cemitério, a que ele apelidou simplesmente de cemitério, sendo o defunto Jacinto de Abrantes, marido de Tomasia Maria, ambos de Travanca. Apenso aos registos da época está uma carta onde o prior pede autorização eclesiástica para esta nova prática de enterramentos, justificando-a com a falta de espaço nos dois templos existentes, a igreja e a capela, provocada por uma epidemia de Febre Maligna que assolou a freguesia. De facto, entre Outubro de 1810 e 27 de Outubro de 1811 faleceram 66 pessoas, o que determinou na altura essa medida extraordinária.


Mas, reposta a normalidade, o cemitério não foi desativado. A partir dessa data, os enterramentos foram sendo feitos indiscriminadamente, quer na igreja quer na capela quer no cemitério. Em 1835 quando a lei da criação de cemitérios fora das povoações entrou em vigor, o cemitério de travanca (do Lameiro), já estava em uso há 24 anos, foi provavelmente aproveitado como um local de transição para um novo, visto que ele era demasiado pequeno para servir como único local de enterros. Começou então a ser referido nos registos como o chamado cemitério da freguesia, justificando dessa forma a existência de um e cumprindo portanto a lei. A 1ª vez que assim foi tratado foi em 4 de Outubro de 1835, a propósito do falecimento de José Marques Neto Júnior de Travanca, coincidindo com a entrada em vigor da nova legislação.


A partir de 2 de Fevereiro de 1839 voltou-se a chamar cemitério da freguesia ao local de enterramento dos defuntos, embora se creia que se referissem já ao novo cemitério de Travanca de Lagos entretanto construído, levando o do Lameiro à sua situação actual. Durou, portanto, cerca de 28 anos ao serviço da freguesia e como não existe nenhum culto associado a ele que perdure, crê-se que terão transladado as sepulturas remanescentes para o novo local. Fica assim resolvido o mistério do Cemitério do Lameiro, também conhecido como Cemitério Velho e conhecida a sua história, complementando assim a memória colectiva do povo de Travanca .

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

1 - Pessoas de Travanca com história - Manuel da Silva


Morreu novo, provavelmente assassinado por vingança, quando passava para a feira dos Carvalhais, perto dos Fiais da Beira, corria o ano de 1842. Segundo Joaquim Martins de Carvalho, em Novos apontamentos para a história contemporânea, a sua morte foi pública e os assassinos foram identificados como sendo António Brandão, o Velho, e o seu sobrinho Manuelzinho. Pertenciam ambos ao Bando dos Brandões de Midões, inimigo figadal do bando dos Brandões do Casal, do qual Manuel da Silva era um sicário.

Foi nesse tempo conturbado das guerras liberais, em que o país estava a ferro e fogo, que ele viveu. A nossa região da Beira Alta era particularmente violenta, tendo-se mantido assim muito tempo para além de terminada a questão liberal. Em nome da política cometiam-se roubos e crimes violentos, assassinatos e vinganças que ficavam sem punição - era a lei da bala!

Quanto aos "feitos" de Manuel da Silva existem poucos relatos escritos, mas sabe-se que participou seguramente em muitas aventuras com os Brandões, primeiro hasteando a bandeira do Liberalismo e mais tarde também, levantando a bandeira do Banditismo. Individualmente foi-lhe atribuída a horrorosa morte do vigário do Ervedal, juntamente com as criadas e mãe. Só 22 anos mais tarde é que se apurou a verdade - tinha sido acusado injustamente- o vigário fora morto pelos próprios irmãos. Esteve também envolvido no cerco ao Bando do Caca, capitaneando como paisano um grupo de civis de Travanca , juntamente com outros paisanas e demais civis e autoridades da época, naquela que seria conhecida como a Matança da Páscoa.

O lendário João Brandão tinha ainda só 16 anos quando Manuel da Silva foi morto, a 29 de Agosto de 1842, vindo descrito na sua certidão de óbito que era casado com Ana Vaz e moravam em Travanca de Lagos. Deixou um filho, que se chamava Luís da Silva, que poucos anos depois foi também assassinado à porta da igreja de Travanca por Paulino José da Costa, de Lagares. Vem assim descrito em Os assassinos da Beira: -" Na povoação de Negrelos, freguesia de Travanca, existia um fulano Ferrão, cunhado de Luís da Silva, o qual, por causa de bens, matou aquele dentro de Negrelos, imputando o facto a Paulino. Este, sobrinho do então pároco de Travanca, num Domingo, quando o povo estava reunido para ouvir a missa, duma janela de casa do tio perguntou a Luís da Silva: - Ó F., quem matou o Ferrão? Silva , voltando-se, disse: - Eu já lhe respondo; e encaminhando-se para casa, que era perto, para, supôs-se, ir buscar a clavina, é passado por uma bala à vista do povo! E ninguém gritou contra o matador!" Assim reza a história.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Património arqueológico rupestre



Como ficou referido em publicações anteriores, Travanca de Lagos é uma povoação muito antiga, tendo tido ocupação humana desde épocas muito remotas. A prová-lo estão os achados arqueológicos rupestres que se encontram dentro da povoação e à volta da freguesia. Esses achados remontam a épocas muito distantes, como o período neolítico - Anta do Pinheiro dos Abraços - o período romano - Estrada e ponte romana, proximidade da Explendidíssima Civitat Bobadela - e a época medieval - sepulturas e lagares rupestres, etc..

I - Época Medieval
Lagares , Lagaretas ou lagariças Rupestres

Existem em Travanca alguns exemplares de lagares escavados na rocha ou lagaretas de sulco, de tipologia diversa, que se destinavam provavelmente à produção vinícola, sendo que, alguns poderão ter sido usados para produzir azeite. A sua datação é incerta. Em lagares similares já estudados noutras zonas do país, especialmente a Beira-Alta e também Trás-os-Montes e Alto-Douro , há autores que referem o período romano ou tardo romano como a época provável do seu aparecimento outros referem o período Alto- Medieval ou Medieval.

Existe uma grande variedade na forma dos lagares, dependendo das condições do afloramento granítico em que são talhados. À parte disso, existe um modelo de base onde se desenvolvem e sobre o qual há consenso alargado. Basicamente são constituídos por: o piso, o pio e o prato.
- O piso ou Calcatorium é uma pia quadrangular, pouco profunda e escavada em plano inclinado, que se destinava à pisa da uva pelo processo tradicional de esmagamento pelo pé do homem.
- O pio ou lacus, mais pequeno e profundo, é um elemento separado do anterior por um orifício, ou bica, que deixava escorrer o mosto para dentro dele. Outras vezes o mosto era recolhido directamente por cântaros de barro. No final, o mosto era transportado para depósitos maiores, mais perto de casa, onde ocorria a fermentação.
- Em engenhos mais complexos existia o Prato, disposto ao lado do piso, de forma circular e plana e que se comunicava com o pio por canais de escoamento ou sulcos. O prato servia de base a um sistema de prensagem mecânico e destinava-se ao esmagamento do bagaço, ainda rico em sumo e taninos, difícil de extrair de outra forma.

Em Travanca de Lagos existem, como foi dito, vários exemplares destes engenhos, de diferentes tipologias, inseridos em propriedade privada e que carecem de um estudo aprofundado. Apesar de haver registos de lagares que estiveram em funcionamento até há poucos anos na Beira Alta, desconhece-se quando é que estes caíram em desuso. Seguem-se alguns dos exemplares encontrados:



Lagar no Alto do Zambujeiro




Lagareta medieval no Búzio (sepultura transformada)




Lagareta no penedo do Gorgulão (inserido num conjunto com necrópoles rupestres)





Lagar na quinta do Moreira de Baixo(vista superior)




Lagar na quinta do Moreira de Baixo(vista frontal)




Lagar na quinta do Moreira de Baixo(vista lateral)




Lagar do Chão do Soito (foto mais antiga)




Lagar do Chão do Soito (vista superior)




Lagar do Chão do Soito (vista frontal)




Lagar do Chão do Soito (pormenor do prato)



2ºLagar no Chão do Soito (encontra-se incompleto)

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Grupo Desportivo de Travanca de Lagos



Como prenúncio de uma nova rubrica, deixo aqui esta fotografia de meados dos anos 70. Uma equipa recheada de vedetas, tudo prata da casa!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Fotos antigas - Lameiro


Travanca de Lagos, Lameiro, Setembro de 1950.
Um grupo de trabalhadores do campo a cofraternizar, pousando para uma fotografia, com alguns familiares meus, recém chegados do Brasil.

Fotos antigas - Pessoas


Emigração para o Brasil

Antonino Estêvão da Costa, meu tio-avô, nasceu em Travanca de Lagos, em 1907. Emigrou para o Brasil nos anos 30 do séc. XX. Casou no Rio de Janeiro com a " tia Maria", tendo tido quatro filhos. Foi vindo a Portugal várias vezes, nomeadamente a Travanca, junto com a família, havendo algumas fotografias a confirma-lo. Faleceu em 1976 no Rio de Janeiro. Sobre a restante família não tem havido notícias...