sexta-feira, 22 de junho de 2018

Pessoas de Travanca com história



Doutor Basílio Freire
                    - Uma breve homenagem


Fig. 1 – Reprodução de quadro a óleo sobre madeira, de Basílio Freire, existente na biblioteca de Anatomia da FMUC.

Chamava-se Basílio Augusto Soares da Costa Freire e foi um prestigiado médico, professor catedrático de Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, dos finais do séc. XIX. Nasceu em Travanca de Lagos, a 7 de Maio de 1857, há precisamente 161 anos, vindo a falecer de forma inesperada com cerca de 70 anos, em 7 de Janeiro de 1927, quando saía de sua casa, situada no Penedo da Saudade em Coimbra, com destino à sua aula de anatomia. Segundo consta das notícias da época, na Gazeta de Coimbra (fig.2), foi uma morte muito sentida pela população de Coimbra, por todo o Corpo da Universidade, pelos alunos e pelos seus discípulos. Deixou duas filhas, uma casada com o Dr. Caeiro da Mata, que viria a ser Ministro de Salazar, e outra casada com o Dr. Álvaro de Magalhães, advogado no Porto.

Fig. 2 – Gazeta de Coimbra de 27 de janeiro de 1927


Era Filho de uma família tradicional de Travanca de Lagos de proprietários de prestígio, a família Soares da Costa Freire, que descendiam dos Soares Coelho, Morgados de Andorinha. O seu pai, Luís Augusto Soares da Costa Freire, natural de Travanca, faleceu com 49 anos, tinha o Dr. Basílio apenas 3 anos de idade. A sua mãe, Maria dos Prazeres da Costa Freire Castelo Branco, era natural de Nogueirinha, Meruge. Também os seus Avós paternos, Manuel Soares Coelho da Costa Freire e Teresa Bernarda Soares, eram de Travanca. Por curiosidade, refira-se que, a sua avó, falecida em 1853, ainda ele não tinha nascido, foi sepultada na desaparecida capela de São Pedro, já aqui referenciado num artigo anterior, num período em que já não eram permitidos enterros em igrejas ou capelas há mais de 20 anos. O seu avô materno, António da Costa Freire Castelo Branco, era de Midões e a sua avó, Maria Teresa de Jesus Emília de Miranda, era de Nogueirinha, Meruge, tal como a sua mãe.

Fig.3 – Casas da família Soares da Costa Freire (onde também viveu a irmã do Dr. Basílio, Maria do Carmo).


Era primo direito da Dona Amélia Soares de Albergaria, a matriarca da Quinta das Hortas já referida no artigo sobre essa quinta. Teve duas irmãs, uma chamada Amélia Soares da Costa falecida prematuramente, com 25 anos, casada com Elísio Mendes Borges e outra de nome Maria do Carmo Soares da Costa, que casara com Diamantino Marques Neto, da família Costa Pereira de Travanca, também já mencionado num artigo a propósito da tuna de Travanca. Viviam todos perto da Fonte de Baixo, entre as Quelhas do Loureiro e o Outeiro.

    

Fig.3 – Portão de entrada da provável casa dos avós do Dr. Basilio. Fig.4 – Casa onde nasceu o Dr. Basílio Freire (construída em 1846).


Ainda novo, foi estudar para Coimbra. Em 1875 estava matriculado em Filosofia e Matemática e em 1879 matriculou-se em Medicina, que veio a terminar em 10 de Abril de 1886. Nesse ano, apresenta a sua dissertação de Doutoramento subordinada ao tema ”Os Degenerados”, uma obra dedicada à loucura e à Psiquiatria (fig. 5 e 6). Três anos mais tarde, em 1889, apresenta a sua dissertação de concurso na Faculdade de Medicina, para professor de Anatomia, com o estudo de Antropologia Patológica “ Os Criminosos”, obra dedicada ao crime e à criminologia (fig. 7 e 8). Ambas as suas publicações, bastante relacionadas entre si e amplamente referenciadas no âmbito forense, refletem uma nova visão sobre o crime e a loucura, uma abordagem positivista da antropologia criminal, estando na base da criminologia moderna em Portugal.


 
Fig. 5 e 6 – Tese de Doutoramento em Medicina “ Os Degenerados

  
Fig. 7 e 8 – Tese de concurso à Candidatura para professor de Anatomia da FMUC “ Os Criminosos”.

Cedo iniciou a carreira de professor de Anatomia, primeiro como professor substituto da Cadeira de Anatomia Descritiva e Comparada, em 1889, depois como Lente, em 1893, e de 1912 a 1925 foi Professor Catedrático de Anatomia, sendo considerado como uma grande referência da Universidade de Coimbra. Nos anos 50 do séc. XX foi homenageado, durante um congresso de cirurgia, como um dos 3 grandes vultos da Escola Anatómica de Coimbra (fig.9).

Fig. 9 – Cartaz do XX curso de aperfeiçoamento e revisão da FMUC.

Dos vários cargos que desempenhou destacam-se o de Secretário da Universidade, entre 1889 a 1895, o de Diretor do Laboratório de Anatomia Descritiva e Topográfica, de 1911 a 1921, o de Diretor das Enfermarias de Doenças Infetocontagiosas, de 1912 a 1926, e o de Diretor da Clínica de Tuberculosos, entre 1924 e 1926. Foi também encarregado dos estudos clínicos, bacteriológicos e meteorológicos proveitosos para o tratamento dos tuberculosos no planalto da Serra da Estrela. Colaborou com o Dr. Sousa Martins, durante o Verão de 1888, na assistência gratuita de doentes na Serra da Estrela, inserido num projeto científico onde defendiam a criação de sanatórios na Serra, usando a climatologia como tratamento da tuberculose.

Para a escolha da carreira de professor de Anatomia não deve ter sido alheio o facto de ele ser possuidor de uma memória prodigiosa, tão necessária nesta disciplina, só comparada no seu tempo à do seu genro, o Dr. José Caeiro da Mata, professor da Cadeira de Direito Peninsular, uma espécie de Anatomia da Faculdade de Direito, e talvez também à do Dr. Marnoco e Sousa, professor de Direito, que nos domínios da hipermnésia seriam equivalentes, segundo consta nas memórias do Dr. Jorge de Seabra no seu livro “A Coimbra Académica do meu tempo”.

  
                Fig. 10 – Casa do Esporão -  2015                       Fig.11 – Brasão dos Viscondes do Vinhal

Em 1889, com cerca de 32 anos, o Dr. Basílio casa no Esporão com Dona Ana da Cunha Freire Magalhães, filha do Dr. José da Cunha Magalhães, bacharel em direito e advogado em Oliveira do Hospital, e de Maria da Glória Garcia Borges Cardoso, do Esporão, irmã do Dr. Agostinho Borges de Figueiredo e Castro, um poderoso e rico proprietário, dos maiores da região. O Dr. Agostinho viria a ser agraciado nesse mesmo ano, pelo Rei Dom Carlos, com o título de Visconde do Vinhal, por decreto em 19-12-1889. Também nesse ano terá sido construída a Casa do Esporão, talvez a capela tenha sido inaugurada com o casamento.

A título de curiosidade, o Dr. Agostinho, bacharel em direito pela UC, era advogado e um inimigo declarado de João Brandão. A questão terá começado em 1854, ano da sua formatura aos 25 anos, quando a esposa de João Brandão, D. Ana Cândida Correia Nobre, que comprara em 1842 ao pai do futuro Visconde, Domingos Borges de Figueiredo, um olival de que este era possuidor na Várzea de Candosa e o filho, por razões várias, agora contestava. Tornou-se assim seu inimigo culminando, como testemunha acusatória, no célebre processo da morte do padre Portugal, que viria a condenar João Brandão ao degredo para África. (Apontamentos da vida de João Brandão, pág. 152 a 156)

Após a morte do Visconde, por não ter tido sucessão, foi herdeira da Casa do Esporão a sua sobrinha, esposa do Dr. Basílio Freire. Contudo, este irá viver grande parte da sua vida em Coimbra, no Penedo da Saudade, dedicado à família e à Medicina. Uma das suas filhas, Maria da Glória da Cunha Magalhães Freire, nascida em 18 de Agosto de 1890, casa em 23 de Abril de 1911, na capela de Santo António da casa do Esporão, com o seu amigo e colega, Dr. José Caeiro da Mata, Professor Catedrático de Direito na Universidade de Coimbra até 1919, ano em que se transferiu para a Universidade de Direito de Lisboa, onde chegou a ser Reitor em 1927. Ela vem a falecer prematuramente, em 1938, com cerca de 48 anos.


   
    Fig. 12 – Dr. José Caeiro da Mata        Fig. 13 – Duelo de Caeiro da Mata com Manuel Afonso da Espregueira

 O Dr. José Caeiro da Mata foi também um político da Monarquia Constitucional, chegando a ser deputado da assembleia pelo partido Regenerador (liderado por Hintze Ribeiro) ficando, infelizmente, associado a um episódio parlamentar insólito. Envolveu-se num duelo ilegal, à antiga, com o ex-ministro da Fazenda, Manuel Afonso da Espregueira, embora sem daí terem resultado quaisquer ferimentos para ambos os lados, o incidente levou à queda do Governo, contribuindo para desacreditar a já débil monarquia e apressando a implementação da Republica Portuguesa. No novo regime republicano, dedica-se à carreira académica, ao mesmo tempo que inflete para a direita conservadora católica. Em 1933, no início da Ditadura, foi Ministro dos Negócios Estrangeiros e abraçou definitivamente a carreira diplomática. Em 1944, a convite de Salazar, adere ao Estado Novo como Ministro da Educação Nacional, colaborando com o governo até cerca de 1950. Faleceu aos 85 anos, a 3 de Janeiro de 1963. Segundo vem descrito na Monografia da Freguesia de Midões, de João Pinho, o Dr. Caeiro da Mata e a família passava longos tempos na Casa do Esporão, especialmente na época de veraneio.

A Casa do Esporão que, citando A Comarca de Arganil de 23-11-1937, “foi palco de um violento incêndio de 20 para 21 de novembro de 1937, suspeitando-se de mão criminosa. Ao que parece a capela foi poupada”, foi portanto reconstruida e melhorada nessa época pelo Dr. Caeiro da Mata.


 
 Fig. 14 – Dr. Basílio Freire

 
               Fig. 15 – Dr. Caeiro da Mata              Fig. 16 – Eng.º Basílio Caeiro da Mata

O seu único filho nasceu em Coimbra, em 9-08-1912, de seu nome Basílio Francisco José de Magalhães Freire Caeiro da Mata, viria a ser 2º Visconde do Vinhal, Senhor da Casa do Esporão e administrador da capela de São Pedro de Travanca. Engenheiro Mecânico, formado no Instituto Superior Técnico de Lisboa, viria a desenvolver o seu trabalho como administrador de empresas, nomeadamente na companhia de Caminhos de Ferro Portugueses. Foi também secretário particular de seu pai, enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Educação Nacional.

Fig.17 – Os Viscondes do Vinhal comemorando as bodas de ouro na sua Casa do Esporão.

Casou em Lisboa, em 12-10-1939, com a espanhola Margarita Rosália González-Fierro y Vina, conhecida por Margot Fierro Vina, filha de um poderoso e riquíssimo industrial e banqueiro espanhol originário de Gijon, Astúrias, Ildefonso González-Fierro Ordonez e de Florentina Vina y Campa. O seu Pai criou um império que começou durante a guerra civil espanhola e que se perpetuou durante e no pós-2ª Guerra Mundial com a exploração de minas de carvão e volfrâmio, também na área do petróleo, da indústria fosforeira e tabaqueira (tendo fundado a Fosforeira Espanhola) e ainda nas áreas da construção e das finanças, fundando o Banco Ibérico.

Fig. 18– Familia Fierro

O Eng.º Caeiro da Mata vem a falecer, com 84 anos, em 1996 e a sua esposa em 18-5-2004 terminando assim a geração do Dr. Basílio Freire, do ramo da Casa do Esporão, visto que na última geração não houve filhos. Segundo se conseguiu apurar, os herdeiros, sobrinhos espanhóis, venderam a Casa do Esporão e todo o seu recheio em 2015, ficando tudo disperso e desinserido do seu contexto histórico familiar.

Fig.19 – Casa do Esporão após o incendio de 15 de Outubro de 2018. (vista lateral)


  
Fig. 20- Casa do Esporão após o incendio de 15 de Outubro de 2018. (vista de frente)

Lamentavelmente, a Casa do Esporão sofreu novamente um violento incendio, no recente Outubro Negro de 2018, ficando bastante danificada. Espera-se que, qual Fénix renascida das cinzas, a casa seja, uma vez mais, reerguida e uma nova família a possa dignificar perpetuando a sua história junto das gerações vindouras.
Quanto ao Dr. Basílio Freire, distinto travanquense, fica aqui a minha singela homenagem!



sexta-feira, 16 de março de 2018

Pessoas de Travanca com história

Feliciano da Silva

Uma perspectiva da sua vida e obra



fig. 1- Feliciano da Silva em 1958, no búzio


Estando este blog destinado à pesquisa histórica, profundamente dedicado à história local de Travanca de Lagos, não pode deixar de fazer uma justa homenagem ao benemérito Feliciano da Silva que, antes de mais, sempre se empenhou na divulgação da cultura e costumes de Travanca, contribuindo com as suas crónicas no jornal, A Comarca de Arganil, entre outros periódicos, ao longo de quase meio século, sendo uma voz de Travanca no exterior. Ainda acresce o facto de que, o primeiro documento de história sobre Travanca que li não ter sido de um livro ou site de internet, mas sim um documento redigido pelo Sr. Feliciano da Silva, resultado da sua pesquisa efetuada nos anos 70, na torre do Tombo. Outros o poderão ter feito mas não com o seu espírito de partilha. Se tivesse nascido umas décadas mais à frente seria porventura, também, um bloger ou teria um site no mundo virtual dedicado à sua terra. Essa é a sua essência.

Quase a completar 88 anos de idade(fig.2), não tem parado de nos surpreender com novos projetos, sempre com grande jovialidade e uma presença simpática e de respeito em Travanca, transversal às várias gerações. Divide a sua vida e coração entre Lisboa e Travanca, onde passa longos tempos no período do verão.



fig. 2 - Feliciano da Silva em 2017

Outrora, precisamente nesses regressos à sua terra, foi o delírio das crianças do meu tempo que, quando avistavam a sua carrinha Peugeot 504, de visita a Travanca, logo corriam, fossem pobres ou não, com o intuito de receberem um brinquedo(fig.3). Segundo diz o próprio, o Pai Natal vinha mais cedo… em Agosto. O Sr. Feliciano trazia a mala cheia de brinquedos para distribuir pela criançada, pois era proprietário de um grande armazém de brinquedos, em Lisboa, e não se esquecia dos meninos da sua aldeia. Pena tinha eu, quando era criança, de nunca ter recebido um desses brinquedos, pois o mês de Agosto era tempo de praia. Andámos sempre desencontrados! Enfim, foi o regozijo das crianças nesse tempo em Travanca.




fig.3 -  Algumas crianças em Travanca aguardando pelos brinquedos, anos 70


A sua vida, contudo, não foi fácil. Nasceu a 27 de Abril de 1930 no seio de uma família de poucos recursos, numa Travanca feudal, conservadora, profundamente religiosa e pobre. Filho de mãe solteira, chamada Maria dos Prazeres da Silva((fig.4), conhecida apenas por Prazeres Malgas, irmã do, também benemérito, José da Silva Garcia que deu o nome á rua onde ambos nasceram, numa casinha de esquina pobre.

Foi criado até aos 13 anos pela mãe e pela avó, Piedade da silva (fig.5), que herdara o apelido de Malgas da família da sua mãe, Ana da Silva, e que dizem ter origem nas características de seus olhos, comparados a malgas. Foi um matriarcado de 3 gerações, sem uma figura paterna.

Teve um irmão mais velho(fig.5), de outro pai, chamado José da Silva e com o qual manteve toda a vida uma relação especial. A sua mãe era trabalhadora rural sem instrução mas, segundo diz, era uma pessoa com grande sabedoria. Do seu pai, que nunca o reconheceu como filho, não guarda rancor. A sua mãe e avó, que tratava também por mãe, eram o seu mundo…


fig. 5 - Piedade Malgas e o neto José da Silva


fig. 4 - Prazeres Malgas















Contudo, aos 13 anos, já com a 4.ª classe, fez-se à vida partindo para Lisboa, sonhando com um futuro melhor. Foi obrigado a crescer depressa e, de menino, se fez homem. À sua chegada estava o seu tio, José da Silva Garcia. O seu primeiro emprego foi de empregado de um estabelecimento comercial, uma pequena mercearia, onde também residia. Viveu e trabalhou na casa dos patrões até aos 15 anos. Embora o tratassem bem, segundo ele conta, foram tempos muito difíceis, muito duros para uma criança.

Depois dessa mercearia viria a trabalhar em mais 3 ou 4 outras. Aos 16 anos iniciou-se como caixeiro de balcão, numa mercearia no Príncipe Real,  o Pavilhão Chinês.

Aos 18 anos foi caixeiro de praça, secção de papelaria como gosta de referir, da empresa J. C. Assunção e, por fim, tornou-se vendedor. Hoje refere com graça “de aprendiz de merceeiro cheguei a caixeiro e depois fui vendedor”.

Aos 21 anos estabeleceu-se por conta própria, como armazenista, dizendo com orgulho que o fiador foi o seu patrão, que muito estimava. Tornou-se, assim, proprietário de uma pequena empresa que foi crescendo, transformando-se num grande armazenista, na Rua Inácio de Sousa.

A sua empresa, Feliciano da Silva, Lda., era um grande armazém, essencialmente de brinquedos, artigos de praia, carnaval, artigos de papelaria fina, de prendas, cartões de boas festas e postais ilustrados. Foi comissionista da firma Jerónimo Martins. Participou em feiras internacionais em Frankfurt, Milão, Valência, etc., o que lhe permitiu viajar por toda a Europa. Laborou durante 56 anos, tendo encerrado há cerca de 10. A porta do seu escritório, essa, só a fechou há um ano. Sempre acarinhou os seus empregados, sendo que alguns eram seus conterrâneos, de Travanca. Foi o caso do Sr. António Brito, já mencionado neste blog a propósito dos craques das primeiras equipas de futebol de Travanca, que trabalhou na sua firma 44 anos.




fig.6 - .Feliciano com 22 anos
  
fig.7 -  Maria Teresa , esposa  de Feliciano
























Casou aos 24 anos com a mulher da sua vida, Maria Teresa da Silva, uma “Lisboeta de gema” (fig. 7). Nessa altura, decidiu dedicar-se em absoluto à família e ao trabalho, mas sempre gostou de viajar e nunca se esqueceu da sua aldeia. Tiveram duas filhas, Cristina Marques da Silva e Ana Paula Marques da Silva, que faleceu ainda jovem, a Paulinha dos seus versos, facto que foi muito marcante na sua vida. Diz ter tido um casamento feliz de 59 anos, embora os últimos 15 com a esposa doente e dependente. Hoje, viúvo, tem uma família alargada de 5 netos e 6 bisnetos que são a sua alegria, o seu jardim florido.

Como católico devoto e membro da centenária Irmandade de São Pedro de Travanca, sendo atualmente o seu mais antigo membro, tem participado ativamente na sua paróquia natal, tendo sido com ele que a confraria recebeu em 1997 o selo branco do Vaticano, quando comemoravam o aniversário dos 365 anos de existência ininterrupta.

fig.9- Feliciano com o irmão José da Silva

fig.8 - Festas de São Pedro













Detentor de um espírito sensível e profundamente poético, começou a escrever poesia com apenas 16 anos. Até ao seu casamento participou, também, em inúmeras peças de teatro de companhias amadoras, destacando-se a Companhia de Teatro Amador da Acção Católica. Em todos os espetáculos que realizava recitava sempre versos da sua autoria (fig.10). Ainda fez figuração em cinema, mas diz com graça nunca ter aparecido em nenhum filme. Nessa época escreveu, também, uma peça de teatro intitulada “Deus Castiga” referindo, com orgulho, não ter tido qualquer reparo da censura.

fig.10 - Feliciano declamando poesia
fig.11 - declamando poesias do  seu 1.º livro














Desde então, não mais parou de "cantar e espalhar por toda a parte" as suas dores, as suas paixões e aventuras. Resumidas em livro, em jeito de homenagem, em Julho de 2007 a Câmara Municipal de Oliveira do Hospital editou as suas primeiras poesias, com o título “Amor, ternura e Fantasia” (Fig.12). Seguiram-se mais quatro livros, todos com a chancela da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital.



fig.12 - Amor, ternura e fantasia
fig.13 -Ao nosso semelhante dai um sorriso!















fig. 15 - No lançamento do seu 3.º livro



fig. 14 - 3.º livro - Amar não é só paixão













O seu segundo livro, editado em 2011, veio a chamar-se “Ao nosso semelhante dai um sorriso”, com apresentação na feira do livro em Oliveira do Hospital (fig.13), e o terceiro foi lançado em Setembro de 2013, com o título “Amar não é só paixão”, que incluiu algumas das suas crónicas do jornal “A Comarca de Arganil”, com capa de Tiago Cerveira( fig. 14 e 15).


fig. 16 - 4.º livro - O amor nunca esquece
fig.17 - No lançamento do seu 4.º livro















O quarto livro saiu em 2015 com o nome “ O amor nunca esquece”, capa também de Tiago Cerveira (fig.16), onde incluiu a sua peça de teatro criada em 1954, tendo o seu lançamento ocorrido na sede da recém-inaugurada Liga de Melhoramentos de Travanca (fig.17).


fig.18 - O seu último livro- O meu lindo jardim florido

O seu mais recente livro foi editado em 2017 e intitulado “O meu lindo Jardim Florido”(fig.18). Foi, novamente homenageado, em 16 de Julho de 2017, desta vez pela Junta de Freguesia de Travanca de Lagos, representada pelo seu presidente, o sr. António Soares, que lhe ofereceu uma placa alusiva ao momento (fig. 20), e pela Irmandade de São Pedro, representada pelo juiz da irmandade, sr. Tomás Pedro, tendo-lhe sido oferecida uma imagem do santo padroeiro, com uma dedicatória (fig. 19).


fig. 20
fig. 19 

Todos os seus livros têm um fio condutor que os liga, a simplicidade, a sinceridade, o amor pela família, pelos amigos e por Travanca. São uma autobiografia, o espelho da sua dor e paixão. É um trovador de Travanca. A escrita é a sua voz e com ela tem sabido difundir a cultura e os costumes de Travanca e homenagear as figuras marcantes do seu tempo.

Viva o Sr. Feliciano da Silva!




quinta-feira, 25 de maio de 2017

Álbum- Fotos antigas







Quinta da Carrosenda, em Travanca de Lagos. Um grupo de trabalhadores na apanha da azeitona, nos anos 40 ou 50 do séc. XX. Em cima, ao centro, parece ser a Dra. Maria do Carmo que era  filha dos proprietários, Felizarda Carvalho e Diamantino Nunes Pereira, ela que foi médica no posto de saúde de Travanca muitos anos. Nesta época, como não havia jardim escola, iam todos para a faina... 

sábado, 22 de abril de 2017

Quintas e Lugares de Travanca de Lagos





Quinta das Mercês 
Antiga Quinta da Via de Lagares

- A história possível e uma possível interpretação da história


fig.1 - Casa da Quinta das Mercês - pormenor
A quinta da Via de Lagares, nome por que era conhecida a célebre Quinta das Mercês até ao início do séc. XX, foi outrora uma bela e próspera propriedade agrícola, encontrando-se atualmente muito repartida e a sua casa residencial em estado avançado de ruína. Situa-se numa encosta na vertente norte de Travanca de Lagos, mais precisamente, quando se desce para Lagares da Beira. A Quinta acompanha a estrada pelo lado esquerdo, desde a cortada para a Quinta da Bica, até ao rio Cobral, embora a estrada atravesse a quinta na extrema sul (fig.2).

fig. 2 - Carta militar  de Travanca com destaque da Quinta a roxo
Tinha cerca de 16 hectares e era constituída por terras de cultivo, pinhais, mato e vinha. Para além da sua terra fértil, a mina de água existente na quinta, com o seu enorme tanque de granito repleto todo o ano, permitia-lhe grandes culturas e grandes colheitas. Anexos, mas dela fazendo parte, existiam também moinhos de água junto ao rio Cobral, conhecidos por Moinhos da Quinta da Via, com casas anexas onde residiram os moleiros e suas famílias ao longo de muitas gerações (fig. 3 a 7).


fig. 3 e 4 - Quinta das Mercês , pormenores da paisagem
fig.4

fig. 5 -  Mina e tanque de água


fig.6 - Extrema norte junto ao rio Cobral


fig.7 - Moinho de água e residencia  anexa

O nome original da quinta da Via de Lagares estará relacionado, como o nome indica, com uma via romana que, passando junto à quinta, continuava depois por Lagares da Beira. Hoje é um caminho secundário, de serventia, estando a calçada romana tapada desde que o caminho sofreu obras de alargamento, supostamente, para melhorar o acesso em caso de incêndio. Uma parte da calçada romana da encosta de Lagares está visível e identificada com uma placa de sinalização. Poderia ser um simples caminho vicinal ou ser parte da via que ligava Bobadela a Viseu.

A história desta grande propriedade começa há muitas gerações atrás, num passado já longínquo, mas disso não há memória e os registos que nos chegam são muito limitados para a datar com precisão. Só a partir do fim do séc. XVlll é que aparecem os primeiros documentos paroquiais a referi-la como residência de alguém, situação que não acontecia anteriormente em que apenas se referiam à freguesia, não sendo tão explícitos com a morada. Desde essa época até à actualidade, a quinta terá pertencido a 3 famílias. Até ao início do séc. XlX, foi, provavelmente, pertença da família Mendes Monteiro, de Lagares da Beira, do séc. XlX até ao primeiro terço do séc. XX, terá sido da família Brito ou Pinto de Brito e, embora dividida, desde os anos 30 até à actualidade da família Marques Fernandes, de Lagares da Beira.

Assim, em 1780 aparece o primeiro documento paroquial a referir-se à quinta da Via de Lagares. É um assento de óbito de Violante Maria, referida como criada do padre José Cardoso de Figueiredo, de Travancinha. O segundo documento refere-se, no ano seguinte, à morte do dito padre, já com 80 anos, sendo este filho de Mariana Marques Mascarenhas e de António Cardoso de Figueiredo, Sargento-Mor do Casal de Travancinha. Como nesse registo o padre não vem referido como proprietário da quinta, o que a ser era geralmente descrito no assento, nem parece ter exercido nenhum cargo paroquial, quer em Travanca quer em Lagares, pois os párocos dessa época e anterior são conhecidos, não se percebe, por enquanto, a sua ligação quer à quinta da Via quer a Travanca de Lagos.

Passado um ano, em 1782, morre na quinta José Alvares, um criado de Manuel Mendes Monteiro, proprietário de Lagares da Beira. Como se tratava de um criado a residir na Quinta, admite-se que o seu patrão fosse o proprietário da Quinta. Em 1808 aparece um registo de batismo em que os padrinhos foram António Monteiro e Maria Eufrásia, da Quinta da Via. Pelo apelido poderiam ser da família do proprietário ou talvez os caseiros. Enfim, no fim da primeira década do séc. XlX a quinta foi adquirida por um bacharel em Direito, que em 1804 terminara o seu curso em Coimbra. Chamava-se António José de Brito, era natural de Loriga, filho de outro António José de Brito e de Isabel Mendes, também de Loriga. Da sua vida passada até à vinda para Travanca apenas se sabe, porque assim ficou descrito numa dita de reconhecimento parental em 1860, que teve uma filha ilegítima de nome Custódia Mendes de Brito, tida em solteiro com Ana Rita Pinto de Abranches, ainda em Loriga, onde aí viria a ser exposta como filha de pais incógnitos. Já a residir na Quinta teve o segundo filho ilegítimo, nas mesmas condições e com a mesma Dona Ana Rita. Desta vez a criança, de nome João Pinto de Brito, foi exposta na freguesia de Travanca, em Negrelos, no dia 20 de Agosto de 1820. O Dr. António José de Brito só viria a legitimar os dois filhos, casando-se com a companheira da sua vida, em 1859, um ano antes de falecer, reconhecendo-os depois como filhos e seus legítimos herdeiros. João de Brito terá sido educado por eles desde pequeno, já a filha terá vivido em Loriga, tendo casado depois com José Mendes de Torroselo e por lá permanecido.


Este proprietário viveu no conturbado período da revolução liberal e guerra civil, muito activa nestas paragens da Beira, como já foi descrito num artigo anterior. Quando se instalou na Quinta deve ter feito obras consideráveis, melhorando bastante a segurança e as condições de vida local, visto estar bastante isolado, praticamente na fronteira entre Travanca e Lagares e, portanto, vulnerável aos roubos e às pilhagens tão comuns naquela época. Não se sabe da sua filiação político-partidária mas, a julgar pelas histórias que se contam, poderá ter sido da fação liberal. Reza a história local que o João Brandão usava a quinta, nessa época, como esconderijo quando andava foragido. De facto, na casa da quinta existem dois quartos subterrâneos, um dos quais entre a cozinha e a sala, sem janelas, com acesso apenas por alçapão, como se de um esconderijo se tratasse, podendo ser usado por algum foragido, como por exemplo o João Brandão, ou simplesmente para ele e a sua família se esconder de alguma investida bélica. Talvez por isso a casa estivesse fortificada, com grandes grades de ferro nas janelas e portas reforçadas com fitas de metal por dentro e chapa por fora, impondo-lhe um ar austero, mas seguro (fig. 8 a 11).

fig. 8 - Casa da Quinta, pormenor

fig. 9 - porta com reforço exterior a chapa de aço
fig.10 - porta da casa com reforço interior de chapa de aço

fig.11 - Casa da Quinta, pormenor do gradeamento

A casa, atualmente, encontra-se em avançado estado de ruína, aparentando ter tido uma arquitetura rural severa, onde sobressai o seu granito escuro e sombrio, mas no seu interior, pelo contrário, mostra que teve exuberância de cor, ao gosto da época, sobressaindo as pinturas figurativas nos tectos e os motivos florais nas paredes que, embora danificadas, ainda resistiram ao tempo para serem registadas parecendo, no entanto, irrecuperáveis (fig. 12 a15) …




fig. 12, 13, 14, 15 - Casa da Quinta, pormenores das pinturas figurativas dos tectos


A Quinta da Via, neste período, era próspera e rica dando guarida e sustento a muitas famílias, desde os moleiros aos caseiros. Entretanto, nos anos que se seguiram, por volta de Novembro de 1845, entra em funções um novo padre em Travanca, substituindo o pároco Ricardo António Mendes da Gama. Chamava-se Manuel Joaquim Pereira Ribeiro da Rocha, mais tarde Presbítero Arcipreste do distrito de Coimbra, cónego capitular da Sé de Coimbra, iria exercer funções até cerca de 1861. Era natural de Passos da Serra, concelho de Gouveia, residindo então em Travanca. Tinha ele uma bonita irmã mais nova que, provavelmente, seria sua visita regular, talvez desde pequena. Numa das visitas terá conhecido João Pinto de Brito, filho do Dr. António José de Brito, tendo daí nascido, mais tarde, um romance entre os dois. Casaram em 1860, ele com 40 anos e ela com 24, mas primeiro os pais do noivo, que viviam em comunhão de facto, tiveram que legitimar a sua própria relação casando-se na sua Quinta em 1859. A Dona Ana Pinto de Abranches, mãe do João de Brito, era natural de Torroselo sendo filha de José Rodrigues de Abranches e de Isabel Pinto de Torroselo. Foi uma relação de uma vida, cheia de mistério e talvez de sofrimento, aquela que teve com o Dr. António. Só depois do casamento puderam reconhecer legalmente o seu filho, então com 40 anos, após o que se deu o enlace com a irmã do Reverendo, Dona Maria José de Sousa Pinto. Ela, nascida em 1836 em Passos, era filha de José de Sousa Pinto e de Delfina Rosa, ambos de Passos da Serra. Antes de morrer, em 25 de Novembro de 1860, já com 85 anos, o Dr. António ainda assiste ao casamento do filho, sendo o irmão da noiva o padre que os casou. A esposa do Dr. António, Dona Ana da Quinta como era conhecida, vem a falecer em 1869, com 80 anos. Segue-se um novo período próspero com uma nova geração, a segunda da família Brito.

Desta união entre João Pinto de Brito e Dona Maria José de Sousa Pinto, ou Pereira da Rocha, como a proprietária algumas vezes vem mencionada no Anuário Comercial de Portugal, apelidos que lhe vêm dos avós maternos, nasceram dois filhos. O mais velho, Augusto das Mercês Pinto de Sousa e Brito (fig.16), ou Mercês como ficou conhecido em Travanca, nasce em 24/9/1871, no dia de Nossa Senhora das Mercês. O seu padrinho de batismo foi José Soares Coelho da Costa Freire. O mais novo, Manuel Eduardo (fig. 17), nasceu em 23/2/1874, tendo por padrinhos o seu tio, o Reverendo Manuel Joaquim Ribeiro Pereira da Rocha, e Dona Teresa Augusta Soares Albergaria Cabral, irmã da Dona Amélia da Quinta das Hortas.

Em 1904 morre João Pinto de Brito, com 76 anos, ficando à frente dos destinos da Quinta a sua viúva, Maria José ou Dona Maria Cónega com era conhecida na época, por associação ao irmão. Esta matriarca só virá a falecer, na sua quinta, em 1918, já com 80 anos.

fig.16 - Augusto das Mercês

fig. 17 - Manuel Eduardo de Brito

Os seus filhos tiveram vidas distintas. O Manuel Eduardo casa-se, na primeira década do séc. XX, com uma professora primária de Gouveia, talvez de Passos da Serra, terra dos seus avós maternos. No entanto deixou 3 filhos ilegítimos, que nunca reconheceu, tidos de uma bela jovem de Travanca por quem se enamorou, fruto de uma relação nunca consentida pela sua mãe pelo facto dos jovens serem de classes sociais distintas. A jovem, de nome Maria da Conceição Costa, abandonou Travanca em 1903, com os três filhos e refez a sua vida em Cascais, junto dos pais e irmãos.

fig.18 - Tuna de Travanca de Lagos em  1914, com os irmãos Augusto das Mercês e Manuel Eduardo nos extremos da foto

O Augusto das Mercês, sempre mais ligado a Travanca, teve uma vida folgada. Foi presidente da primeira Tuna de Travanca de Lagos (fig.18), onde participa também o irmão, e foi Regedor de Travanca entre os anos de 1914 e 1915. Nunca casou, mas teve também vários filhos ilegítimos. De uma das criadas da Quinta, Ana Mendes mais conhecida por Ana das Mercês, teve um filho em 1904, chamado Eduardo e, em 1905, uma filha de nome Maria das Mercês. A Maria foi educada na quinta e reconhecida como filha legítima, em 29/9/1932, por altura do seu casamento. O Eduardo e a mãe mudaram-se para o povo, onde passaram a viver numa pequena casa, já nos anos 20. Augusto Mercês teve ainda outro filho, em 1914, António Mendes, alcunha de Moio, tido de uma jovem de Travanca chamada Maria Teresa Cravo, que terá emigrado para o Brasil, tendo o filho sido criado pela avó, Conceição Cravo, até à idade de ir para a tropa.

fig. 19 - Carimbo da Quinta usado elo Augusto das Mercês

Com a morte da Dona Maria Cónega, em 1918, fica com os destinos da Quinta da Via de Lagares o Augusto das Mercês. É nesta fase que a quinta muda de nome para Quinta das Mercês, em honra ao seu recente proprietário (fig. 19), e atinge, provavelmente, o seu apogeu, se não pelos rendimentos agrícolas, pelo menos pelas opulentas festas que dava e que se iriam tornar frequentes nesses loucos anos 20 em Travanca. O Mercês vivia dos rendimentos e tinha uma vida de luxo. Conta-se que, na época, tinha um carro, o que era uma sensação na Terra. Quando queria ir de carro da quinta até ao povo, o que era uma subida considerável, ou ia puxado por uma junta de bois ou burros ou, então, pela pequenada entusiasta que o ajudava nessa tarefa! Com o tempo, esta vida faustosa levou ao declínio da Quinta, às hipotecas, à ruína. Em 1930 morre a sua governanta, pessoa que ele muito estimava, ficando a viver só com a filha. Vende o que tem e muda-se para Viseu, onde investe numa empresa de material de construção, A Combatente. Casa a filha em 24/9/1932, no dia em que fazia 61 anos de idade, perdendo-se depois o seu rasto. Contava o Sr. Ivo que teria morrido em Vil de Moinhos, freguesia de Viseu.

Por volta de 1930, a quinta, já hipotecada, foi adquirida por Alexandre Marques Fernandes, um abastado emigrante no Brasil, natural de Lagares da Beira. Segundo conta um familiar, teria feito fortuna com um elixir para o cabelo chamado Juventude Alexandre (fig. 20), muito popular no Brasil, um produto eficaz que restaurava a cor natural do cabelo e que lhe valera, para além da fortuna, um prémio internacional obtido em Paris. Segundo é referido por  Carla Francini Terci, terá sido comercializado no Brasil desde o ano de 1908 até cerca de 1960. O engraçado, segundo o sobrinho, é que o tio sendo careca não podia usufruir da sua fórmula! Ainda hoje se produz em Portugal, embora a patente tenha deixado de pertencer à família, é comercializado pelo laboratório Gestafarma.

fig. 20 - Anúncio na revista Fon-Fon, Brasil  1930

Entretanto o senhor, não tendo filhos, deixou, logo à partida, a propriedade para os seus 4 irmãos que, ainda em 1932, a escrituraram e dividiram pelos quatro, tendo todas as partes cerca de 4 hectares (fig. 21).

fig. 21 - Carta militar com o pormenor da divisão da Quinta em 4 partes, aproximadamente


António Marques Fernandes, na época solteiro, proprietário da Quinta do Borralhal, em Lagares da Beira, viria a casar e viver em Maceirinha, Seia, e mais tarde emigraria para o Congo, ficou com a parte que continha a casa de residência da Quinta, o lagar e terreno misto.

Adelino Marques Fernandes, casado com Blandina de Figueiredo Fernandes, ficou com a parte que continha a casa dos Caseiros, a forja, a mina e, claro, terra com fartura.

Agostinho Marques Fernandes e a esposa, Dona Maria Augusta Fernandes, ficaram com a parte da quinta a sul, mais perto de Travanca.

Dona Elisa do Rosário Fernandes e o marido, António Mendes Gonçalves, ficaram com o estremo norte da quinta, fronteiro ao rio Cobral, contendo os chamados Moinhos da Via.

Nenhum dos quatro irmãos chegou a viver na quinta mas, também, esta nunca esteve desocupada. Na casa principal, pertença de António M. Fernandes, passou a viver como caseiro, desde essa altura, José da Costa e sua família, naturais de Travanca, cuidando dessa parte da quinta. Mais tarde, uma filha, chamada Conceição Costa, casa com Joaquim Carvalho, Saca de alcunha, passando a residir lá com a família que foi formando e tomando conta dessa parcela. Na casa ao lado, a dos caseiros, pertença do Adelino, passa a viver outra filha de José da Costa, Maria das Dores da Costa, quando casa com António da Costa Brito, conhecido pela alcunha do Forcas, activando a forja que se situava no piso inferior. Viveram lá até meados dos anos 80. Esta parcela foi, na última década, comprada por um casal Norueguês.

Nos anos 50, na parcela referente à Dona Elisa viveu uma filha, conhecida por Marquinhas, casada com um senhor, também de Lagares da Beira, chamado Francisco Coelho, (fig. 24). Teve ainda outra filha conhecida por Teresinha. Posteriormente esta parcela teve como caseiro, até meados dos anos 90, o senhor Albertino Marques Miguel, conhecido por Coradinho. Actualmente a propriedade também já foi vendida a um casal de Ingleses. A parcela do Agostinho também foi vendida, encontrando-se novamente à venda.

fig. 24 - Casa de habitação e moinho de água reconstruidos

fig. 25 - Ruínas de um moinho de água da Quinta

fig. 26 - Paisagem da Quinta com pormenor de uma casa de habitação junto ao moinho ruído


Só a quinta de António Marques Fernandes ainda está na posse dos herdeiros. O seu proprietário actual, o Dr. António Pinto Fernandes, residente no Porto, tem-na à venda. Segundo ele conta, a quinta teve um projecto de requalificação que previa a reconstrução da antiga residência, com a recolocação da sua antiga e majestosa chaminé, mas, infelizmente, o projecto não avançou.
Resta portanto, para bem da história e do património, que alguém sensível a estas questões, e também com gosto pela terra e pela nossa Terra, lhe queira repor novamente a glória de outros tempos, dando àquele granito patinado nova vida, novo rumo!

Agradecimentos,
Fotos – 16,17,19 – Maria Eduarda Garcia
Foto 18 – António Manuel Soares
Foto 20 – Carla Francini Hidalgo Terci